A China começa 2004 preparando-se para enfrentar um desafio espinhoso em sua política externa.
No mês de março, o presidente de Taiwan, Chen Shui-bian, vai buscar a reeleição, e sua campanha já repete uma fórmula clássica na “ilha rebelde”: angariar popularidade com desafios a Pequim.
A ameaça de uma nova e grave crise entre China e Taiwan ronda o continente asiático como um fantasma, ao agitar o medo da instabilidade na região e até mesmo de um confronto armado.
O Partido Comunista chinês mantém a ameaça de invadir Taiwan caso a ilha declare independência, ou seja, renuncie formalmente à reunificação.
Discurso diluído
A divisão remonta a 1949, quando os nacionalistas comandados por Chiang Kai-shek foram derrotados pelos comunistas de Mao Tsé-tung e se refugiaram em Taiwan.
Em 2000, os nacionalistas perderam a Presidência de Taiwan para o Partido Democrático Progressista (PDD), de Chen Shui-bian.
A organização surgiu apoiada na idéia de Taiwan declarar a independência, rompendo com a idéia da reunificação com a China continental.
No poder, Chen Shui-bian diluiu o discurso, a fim de buscar uma acomodação com o gigantesco vizinho.
Volta as raízes
No entanto, nos últimos meses, o presidente resgatou o discurso histórico do partido, agora de olho nas pesquisas de intenção de voto para o pleito de 20 de março.
As sondagens mostram que, no início da campanha, largou na frente Lien Chan, candidato dos nacionalistas.
Chen Shui-bian anunciou planos para realizar simultaneamente à eleição dois referendos, para exigir de Pequim o fim da ameaça de invasão de Taiwan e a remoção dos 496 mísseis apontados contra a ilha.
“Colocar mísseis é uma forma de terrorismo de Estado”, declarou Annette Lu, vice-presidente taiwanesa.
A China classificou a iniciativa de Chen como “totalmente sem razão” e defendeu manter o recurso de força militar como instrumento para “proteger a soberania nacional e a integridade territorial” do país.
Mudança
Pequim demonstrou nos últimos meses uma mudança na sua política em relação a Taiwan.
Em 1996 e em 1999, outros momentos de desafios da “ilha rebelde”, a China respondeu com exercícios militares, a fim de acenar com a ameaça da invasão.
A mão pesada acabou resultando em aumento da popularidade dos líderes taiwaneses que desafiavam o gigante comunista.
A China, sem abrir mão da ameaça da invasão, parece ter desistido de shows militares.
Passou a colocar mais ênfase em iniciativas diplomáticas e conquistou significativa vitória no começo de dezembro, quando o presidente norte-americano, George W. Bush, criticou as iniciativas de Chen Shui-bian.
A Casa Branca se declarou preocupada com tentativas de “alterar o status quo na região do estreito de Taiwan”.
Coréia do Norte
O presidente Bush sabe que precisa proteger sua relação com Pequim.
Conta com a sua ajuda para resolver o desafio representado pela Coréia do Norte, que ainda mantém laços importantes com o governo chinês.
A Casa Branca teme também as conseqüências para a economia mundial de um cenário asiático golpeado pela instabilidade de um conflito armado entre China e Taiwan.
O governo do presidente Hu Jintao mantém o crescimento econômico acelerado como prioridade de governo, mas já sinalizou estar disposto a pagar um preço para “deter o separatismo de Taiwan”.
O nacionalismo de Pequim, substituto do marxismo como alicerce ideológico do Partido Comunista chinês, não toleraria a separação em definitivo da “ilha rebelde”.
Aposta
Chen Shui-bian deverá, durante a campanha eleitoral, acirrar a retórica pró-independência.
Trata-se de uma aposta política de alto risco, que ameaça mergulhar a região num atoleiro de instabilidade.
Mas a estratégia do presidente de Taiwan vai enfrentar uma aliança poderosa, interessada em impedir que a ilha formalize sua renúncia à idéia da reunificação.
China e Estados Unidos se aproximam, na busca de soluções negociadas para os desafios taiwanês e norte-coreano.
O namoro levou Richard Armitage, subsecretário de Estado norte-americano, a se descrever recentemente como “absolutamente gratificado com o estado de nossas relações com a República Popular da China”.