Qual a minha posição em relação ao governo da Grã-Bretanha agora que vou completar 26 anos aqui?
Não tenho passaporte da União Européia, ao contrário de 95% de meus colegas emigrantes (eles preferem se chamar de "expatriados"), não gozo de benefícios sociais.
Minha vida é dura, mas me deixaram ir ficando por aqui com direitos pelos quais sou grato: medicina gratuita, cinema mais barato, transporte gratuito fora da hora do rush.
As obrigações são as de qualquer país civilizado: pagar imposto de renda, não cuspir na calçada.
Votar? Nem pensar.
Embora, pensando bem, talvez seja a minha grande atração pelo país: não poder votar, empecilho que conheci de sobejo (perdão pela expressão... ahh... "datada", não é assim que se diz?) em meu torrador, digo, torrão natal, ou seja, o Bananão, conforme o chamam os antipatriotas com os quais, graças a Deus, não tenho e nem quero intimidade.
Sou exclusivista e semi-ufanista.
Acontece que eu, nesse tempão todo, lendo jornal, vendo televisão, ouvindo rádio e papeando no pub, adquiri – ou me vi forçado a adquirir – opiniões e aquilo que uma pessoa mal informada confundiria com "posições" políticas.
Tudo muito sobre o sereno, claro. Afinal estamos em país de zona e zorra temperada.
Não vou entrar em detalhes sobre meu – rá! – posicionamento político, mas, de uma forma geral, poderíamos chamá-lo de "à esquerda do centro", que é mais neutro, mais mineiro, do que chegar e dizer, de supetão, com cara enfezada, "Eu sou de esquerda! E daí?"
Trocado em miúdos, isso significa que eu deveria torcer pelo Tony Blair e seu novo Partido Trabalhista.
Mas sou forçado, mau caráter como todo exilado, a ir com o povão.
Pesquisa realizada agora, neste fim de ano, revela que Blair é o político britânico que menos confiança inspira nas 13 mil pessoas que dela participaram. Apenas 4 mil fazem fé no homem.
Ele perde para seu ministro das Finanças, Gordon Brown, e para o líder do Partido Liberal, Charles Kennedy.
O negócio anda tão feio para o lado dele que chega atrás até do atual líder da oposição, o conservador Michael Howard, e aquele que o precedeu, Iain Duncan Smith, tido como uma piada universal.
A situação de Blair é péssima para quem continua, apesar de desmentidos americanos, a acreditar na existência de armas de destruição em massa no Iraque.
Sou, pois, por momentos ao menos, torcedor de Blair, como quem torce pelo Chelsea no jogo contra o Manchester United.
No fundo, nunca deixei de te amar, ó glorioso Botafogo, campeão desde 1910!