Analistas uruguaios e argentinos ouvidos pela BBC Brasil afirmaram que o governo uruguaio do presidente Jorge Batlle está indo ''contra a corrente'' do Mercosul.
A análise foi realizada em meio às novas tensões na relação entre os governos da Argentina e do país vizinho.
''O Uruguai, governado pelo presidente Batlle, está fora de foco na região'', afirmou o historiador e analista econômico Gabriel Oddone, da Fundação Centro de Investigações Econômicas.
''Se a eleição presidencial fosse hoje no Uruguai, o vencedor seria o opositor Tabaré Vasquez. Portanto, a opinião pública uruguaia está na mesma linha que os países vizinhos que elegeram (Luiz Inácio) Lula da Silva no Brasil e Néstor Kirchner na Argentina'', acrescentou o cientista político argentino Rosendo Fraga, do instituto de opinião Centro de Estudos União para a Nova Maioria.
Hoje, a popularidade de Batlle registra seus piores índices.
Mas, segundo o analista, o fato poderia ser considerado ''normal'', já que é o último ano de governo e as eleições estão previstas para o último domingo de novembro de 2004.
"Questão pessoal"
Tanto Gabriel Oddone quanto Fraga e o analista político Ricardo Rouvier, do instituto de opinião Ricardo Rouvier e Associados, entendem, porém, que a disputa entre Argentina e Uruguai poderia ser resumida a ''uma questão pessoal'' entre os dois presidentes.
''Ao mesmo tempo, a relação do Brasil e da Argentina, após a eleição de Lula e de Kirchner, está mais forte e o Uruguai acaba ficando de fora desta onda'', afirmou Rouvier.
Para ele, esta ''onda regional'' inclui ainda nomes como os de Evo Morales, na Bolívia, e do presidente Hugo Chávez, na Venezuela.
''Todos eles contra a linha do Consenso de Washington que marcou os anos 90. Atualmente, Batlle é o único que representa aquela filosofia'', disse Rouvier.
O analista destacou ainda que já é visível a política de Lula e Kirchner de apoiar o opositor a Batlle no próximo pleito, Tabaré Vásquez, do partido Frente Ampla.
Jorge Batlle é filho de um dos principais presidentes da história do Uruguai, Luis Batlle Berres, como recordou Oddone.
Na época de seus dois governos, nos anos 40 e 50, ele teve uma relação ''privilegiada'' com os Estados Unidos.
O mesmo que seu filho e atual presidente tentou fazer no fim dos anos 90 e início desta década. Gestos que seriam, segundo os analistas, o pano de fundo para as diferenças públicas entre a Argentina e o Uruguai.
'Ladrões'
No ano passado, Batlle disse a uma TV que os argentinos eram ''todos ladrões''.
Depois, chorou diante das câmeras de televisão da Argentina e pediu perdão.
Agora, as desavenças levaram o chefe de gabinete da Casa Rosada, Alberto Fernández, braço direito de Kirchner, a aparecer ao lado das Mães e Avós da Praça de Maio, que perderam filhos e netos para o regime autoritário.
Juntos, eles condenaram publicamente a indicação de um militar acusado de ter participado da última ditadura para a embaixada do Uruguai na Argentina.
No fim da tarde desta sexta-feira, o ministro das Relações Exteriores do governo argentino, Rafael Bielsa, convocou a imprensa para dizer que o episódio está ''superado'', mas que ainda espera que o Uruguai desista de mandar o capitao da Marinha, Juan Craigdallie, como adido militar na Argentina.
A confusão ocorre num momento em que o Uruguai registrará crescimento zero este ano, após uma queda de 14% do Produto Interno Bruto (PIB) no ano passado, mas com uma expectativa de crescimento de 4,5% ano que vem.