O presidente argentino Néstor Kirchner disse que a crise gerada nesta sexta-feira entre seu governo e o do Uruguai é resultado do ''desatino'' de um representante daquela administração.
Kirchner fez a afirmação durante o tradicional programa de televisão Almoçando com Mirta Legrand, da TV América. O programa foi transmitido direto de El Calafate, terra natal do presidente, no sul do País.
Ao falar em ''desatino'', o presidente da Argentina referia-se ao assessor da Presidência do Uruguai, Carlos Ramella, que acusou o governo argentino de atuar como ''agitador ou simpatizante de guerrilheiros'' e de se meter em assuntos internos do Uruguai.
Ramella teria ficado irritado com a decisão dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Néstor Kirchner de ter um encontro privado com o líder da oposição uruguaia Tabaré Vázquez, e não com o presidente Jorge Battle, na mais recente cúpula do Mercosul.
O presidente argentino também aproveitou o programa para criticar a indicação do capitão da Marinha Juan Craigdallie, por parte do governo uruguaio, para ser adido naval adjunto do país na embaixada na Argentina.
''Espero que o governo do Uruguai não mande aquele torturador para cá'', disse Kirchner. ''A designação deste torturador selvagem é uma falta de respeito com a Argentina.''
Ditadura
Craigdallie é acusado de ter atuado durante o regime autoritário no Uruguai, sendo responsabilizado, segundo a primeira-dama e senadora Cristina Kirchner, que também participou do programa de TV, pela morte de dois argentinos.
A designação de Craigdallie levou o ministro das Relações Exteriores argentino, Rafael Bielsa, a chamar às pressas para Buenos Aires o embaixador da Argentina no Uruguai, Hernán Patiño Meyer.
O gesto foi interpretado na Argentina e no Uruguai como um dos mais ''delicados'' incidentes diplomáticos entre os dois países. Chegou-se a especular que a Argentina estive retirando seu embaixador do país vizinho.
Na entrevista à TV, no entanto, Kirchner negou que pretenda retirar o embaixador do Uruguai.
Ouvidos pela BBC Brasil, assessores diretos do presidente uruguaio Jorge Batlle tentaram amenizar a polêmica com a Argentina.
''Os problemas serão discutidos entre os representantes dos dois governos. Provavelmente, entre os ministros das Relações Exteriores dos dois países'', afirmaram.
Dificilmente, porém, as conversas irão aproximar os presidentes argentino e uruguaio, já que Kirchner deixou claro em diferentes oportunidades que é contrário à política de governo de Batlle.
No Uruguai, o governo ainda está definindo o destino do capitão da Marinha.