O presidente George W. Bush espera que a captura de Saddam Hussein detenha duas insurreições: a primeira que desestabiliza a ocupação americana no Iraque e a segunda que ameaça a sua reeleição em novembro.
A candidatura do pré-candidato democrata Howard Dean tem sido definida como uma insurreição.
O ex-governador do pequeno estado de Vermont tem recorrido a eficientes táticas eleitorais guerrilheiras, como a coleta de fundos de campanha de pequenos doadores através da Internet.
Mas o insurgente Dean cresceu demais. Antes da captura de Saddam, a grande notícia nos EUA fora o endosso do ex-vice-presidente Al Gore à candidatura de Dean e pesquisas nos últimos dias confirmavam seu favoritismo cinco semanas antes do início da maratona de primárias democratas.
Portanto, o insurgente começava a atravessar aquela fronteira da rebeldia para a respeitabilidade.
Em sua edição dominical, o "New York Times" tomou nota do empenho de Dean para moderar suas posições em política externa.
Nesta caminhada para o meio-de-campo a mensagem era de que seu foco estaria mais em correção de curso do que uma reversão.
Bush também prefere ficar no meio-de-campo. Ele evita triunfalismo com esta espetacular vitória militar e política que foi a captura de Saddam Hussein.
O presidente inclusive adverte que o Iraque ainda é o Iraque. Não se torna uma Escandinávia com Saddam capturado.
Para Howard Dean, este domingo foi dia de admitir o óbvio. Como ele disse em entrevista à televisão, a captura do ex-presidente, "francamente", foi boa notícia para iraquianos, americanos e, particularmente, para o atual ocupante da Casa Branca.
Os rivais de Dean, é claro, não perderam a oportunidade para minar a força do líder. Na sua entrevista, o senador Joe Lieberman deu a alfinetada. Disse que se Dean estivesse no poder, Saddam Hussein também estaria no poder.
A Casa Branca tem razões de sobra para celebrar este tipo de "fogo amigo" entre os democratas, mas de novo nada de triunfalismo.
Dean cresceu e ao longo dos últimos dias os estrategistas políticos da Casa Branca advertiam contra o risco de complacência diante deste avanço. Karl Rove, o bruxo eleitoral de Bush, nunca escondeu que torcia pela vitória de Dean nas primárias democratas.
No raciocínio dele, o rebelde que reflete uma indignação com o estado de coisas está muito à esquerda para o gosto americano. Portanto, seria o candidato ideal contra o presidente.
De fato, a grande bandeira de luta de Dean tem sido o Iraque, que nas palavras do seu benfeitor Al Gore foi um "erro catastrófico" da política externa americana.
O Iraque inclusive tendia a se tornar a única bandeira de luta de um candidato insurgente com a economia dando mostra de recuperação sustentável.
A questão é saber como a prisão de Saddam irá alterar a dinâmica eleitoral mais a médio prazo.
Em termos imediatos, obviamente, George W. Bush, assim como Saddam Hussein, saiu do buraco.