Frei Betto, assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, está viajando pela Europa para apresentar o projeto Fome Zero.
Ele passou três dias na região norte da Itália, a convite de organizações não-governamentais, fez uma sucessão de palestras e reuniões, todas com lotação esgotada. Não saiu da Itália com as mãos vazias.
"Saber que o italiano sai de casa neste frio para ouvir um desconhecido dá bem a medida do interesse dele em lutar contra a fome", disse Frei Betto à BBC Brasil, pouco antes de uma palestra aos moradores de Nembro, cidade da província de Bergamo.
Ele também esteve em Montemarciano, Ancona, Modena e Quarrata, em Pistóia. Nos próximos três anos, Pistóia vai contribuir com 16 mil euros ao ano para formar carpinteiros.
Quarratas vai ensinar aos brasileiros de Lins, em São Paulo, a cultivar mudas de plantas. No fim do mês, um concerto beneficente em Milão vai angariar fundos para o projeto.
Rede
"O que eles mais querem saber é como uma multinacional pode ajudar no programa. Eu respondo que faço parte da coordenação, e a empresa não sendo de produção de bebida alcoólica ou de fumo, certamente será avaliada por nós e receberá um certificado de parceria. No Brasil é absolutamente legal doar alimentos", responde Frei Betto às perguntas dos italianos.
Recursos para a construção de cisternas no Nordeste e programas de microcréditos para as famílias do Fome Zero também estão sendo levantados por uma legião de anônimos italianos, como o ex-carteiro Antonio Vermigli, de Quarrasta, um dos fundadores da Associazione Italiana Sostenitori Fame Zero, responsável pela viagem de Frei Betto.
A rede italiana de solidariedade já conta com parceiros grandes como a ONG Slow Food e a Emergency, do médico milanês Gino Strada.
A ONG é especializada em construir e manter hospitais em zonas de conflito, como Iraque e Afeganistão, e Strada decidiu que vai entrar na guerra contra a fome.
Ele disse que a ONG vai investir US$ 2 milhões na construção de novos postos clínicos e um hospital, que vão ajudar os moradores de Picos e de outros 53 municípios vizinhos, no interior do Piauí, a terem uma saúde de primeiro mundo.
"A Itália tem uma dívida social com o Brasil. Nós acolhemos de braços abertos os imigrantes desempregados, no início do século passado, e demos a eles as melhores terras", conta Frei Betto.
Doações de estrangeiros
Da Itália, ele foi para a Espanha, onde fica até quinta-feira, em missão semelhante em Madri, Barcelona e Oviedo.
Os prêmios internacionais ao projeto já são três e servem como uma espécie de selo de qualidade. Eles dão prestígio aos doadores e conforto aos beneficiados, mas o projeto também sofre críticas dentro do próprio governo.
"Não acredito neste projeto sem a reforma agrária, por isso nós vamos fazê-la com um plano ousado e delicado", disse Frei Betto.
As visitas de autoridades brasileiras a diversos países em 10 meses de existência já levou o Fome Zero a arrecadar fundos nos quatro cantos do planeta.
Segundo os dados oficiais do projeto, a Alemanha já contribuiu com cerca de R$ 30 milhões, seguida da Itália com R$ 13 milhões, Noruega com R$ 100 mil e Austrália com R$ 4 mil.
França, Japão, Irã e Israel fizeram promessas de apoio a projetos institucionais e transferência de tecnologia.
Nos Estados Unidos, foi criado um site para receber doações.
"Esses recursos são importantes, mas ainda poucos diante do desafio que temos pela frente e não chegam a 10% dos valores destinados pelo governo, anualmente", disse Frei Betto.
Modelo exportação
"Quando penso que Bill Gates doa a cada ano para a luta contra a Aids US$ 100 milhões, penso que é como se nós, bem nutridos, disséssemos que se os pobres morressem de fome isso não tem a menor importância, eu é que não posso morrer de Aids", acrescentou, admitindo o “cinismo do raciocínio”.
O Fome Zero está sendo acompanhado de perto, com muito interesse pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês).
Países como o México, a África do Sul e o Paraguai querem adaptar às suas realidades os conceitos básicos do programa Fome Zero.
Ainda neste mês, a Argentina vai promover em Buenos Aires um encontro entre os técnicos argentinos e brasileiros. No cardápio do encontro: a fome