Os organizadores dos protestos contra a presença de George W. Bush em Londres dizem que vão expressar a voz do povo britânico com um rotundo “não” ao apoio do primeiro-ministro Tony Blair ao presidente americano.
Voz do povo? Não se depender de um grupo de garis para quem a reportagem da BBC Brasil pediu informação sobre como chegar ao ponto-de-encontro do primeiro protesto desta quarta-feira.
“Você vai protestar?”, perguntou um, desconfiado. Outro foi mais direto: “O que você ganha com isso, mate?”.
A reação pode não ser um caso isolado de quem tinha que trabalhar no frio enquanto outros passeavam pela cidade cantando, agitando e se divertindo.
Recentes pesquisas de opinião mostram que, no que diz respeito ao apoio à ocupação do Iraque e outras políticas de Bush, a voz dos britânicos está longe de ser uma só.
Policiais
Quem esperava Londres totalmente mobilizada para hostilizar o autoproclamado líder da "guerra contra o terrorismo" teve uma decepção nesta quarta-feira.
Na cerimônia oficial de chegada do presidente americano, no Palácio de Buckingham, os turistas compuseram o maior agrupamento presente, seguidos, na ordem, por policiais e jornalistas.
Os manifestantes marcaram presença com cerca de meia dúzia de representantes – quantidade similar à de ex-militares e veteranos de guerras recentes que estavam lá por motivos bem diferentes.
Quem lucrou foram os turistas. Além de poder ver o famoso palácio, a rainha Elizabeth 2ª e até George W. Bush, eles puderam presenciar um desfile militar que contou com uma salva de tiros de canhão e coloridos batalhões de cavalaria.
Em armas
Mas o diferente mesmo foi o policiamento – já deu para reparar a diferença que 5 mil policiais extras fazem nas ruas da cidade.
Na região do Palácio de Buckingham, eles estavam por todos os lados: nos dois parques vizinhos, nas ruas em sua volta... Em The Mall, a via que dá acesso ao palácio, era impossível andar 20 metros sem topar com uma dupla de coppers.
Um helicóptero ficou permanentemente em suspensão sobre a região, mas chocante mesmo foi ver um cordão de policiais armados em pose ameaçadora.
A polícia londrina é famosa por andar desarmada, e a visão de metralhadoras e rifles nas mãos dos homens da lei é algo muito do longe do dia-a-dia dos moradores da cidade.
'Esquerda!'
O principal protesto do dia, uma passeata que saiu da frente da London Eye, a roda-gigante na margem sul do rio Tâmisa, também transcorreu sob o olhar atento de muitos policiais.
Algumas centenas de pessoas seguiram uma carruagem que carregou caricaturas de Bush e da rainha até Trafalgar Square, no centro da cidade.
Cada um fazia o máximo para chamar a atenção. Alguns usavam máscaras de Saddam Hussein; um grupo carregava um míssil inflável; outro empurrava um pequeno carro alegórico cor-de-rosa com uma jovem loira no topo.
Típico do protesto desta quarta-feira foi um grupo fantasiado de soldados-palhaços, usando escorredores de macarrão no lugar de capacetes.
Eles marchavam sob a palavra de ordem “Esquerda! Esquerda! Esquerda! Esquerda”.
Para expressar a “voz do povo”, na quinta-feira, os organizadores vão ter que atrair tipos mais variados de gente.
E também muito mais – eles falam em até cem mil pessoas.