O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, tiveram o seu primeiro encontro desde que trocaram farpas públicas sobre as respectivas administrações.
Marcado de última hora, o encontro ocorreu em Santa Cruz de la Sierra depois da inauguração oficial da 13ª Cúpula Ibero-americana.
Reunidos numa pequena sala do hotel Los Tajibos, onde estão hospedados todos os chefes de Estado e de Governo, os dois disseram que se tratava de um encontro de velhos amigos.
Em uma entrevista concedida a um jornal espanhol, no mês passado, FHC disse que faltava criatividade na política social do atual governo.
Lula, por outro lado, chegou a chamar os ex-presidentes de covardes, por não terem feito as mudanças necessárias para o país.
Conselhos
Ao término do encontro, que durou quase 30 minutos, FHC disse que não deu nenhum conselho sobre política para o presidente Lula.
"Conselhos pessoais, sim, sempre estiveram bem e continuam ótimos", disse o ex-presidente."Políticos, não. Nós não falamos de política."
Lula é um dos presidentes mais prestigiados do encontro. Mas Fernando Henrique Cardoso também está tendo grande destaque.
Na reunião de Cúpula do ano passado, realizada na República Dominicana, o então presidente foi designado pelos participantes para elaborar um documento sobre os próximos encontros.
Informe Cardoso
Conhecido como "Informe Cardoso", o documento será apresentado na manhã deste sábado para os 21 chefes de Estado e de Governo.
O trabalho coordenado por FHC causou enorme polêmica, quando foi analisado pelos Ministros das Relações Exteriores na última quinta-feira.
Alguns ministros acham que é prematuro decidir sobre a criação de uma Secretaria Permanente Ibero-americana, como defende o ex-presidente brasileiro em seu informe.
Este organismo internacional teria capacidade de representar todos os países membros e estabelecer um espaço para consultas, acordos políticos e cooperação.
FHC disse que antes de fazer o informe tinha conversado com todos os presidentes e o que escreveu resume a médias das opiniões.
Segundo o ex-presidente, já era previsto que houvesse muitas discussões sobre o tema.
'Latino-americanos influentes'
Durante a abertura oficial da 13ª Cúpula, o secretário-geral das Organizações das Nações Unidas (ONU), Kofi Annan, destacou o trabalho de três latino-americanos: o antecessor dele no cargo, o peruano Javier Pérez de Cuellar, o Alto Comissário para os Direitos Humanos da ONU, morto no Iraque, Sérgio Vieira de Mello, e o presidente Lula.
Sobre Vieira de Mello, disse que o trabalho do brasileiro foi muito maior do que simplesmente ajudar um país em guerra.
"A dor comum pela sua perda aproxima ainda mais e une as Nações Unidas e o mundo ibero-americano", disse Annan.
"Se tivesse vivido mais anos, Sérgio teria, sem dúvida, conseguido fazer mais coisas, o que teria sido apropriado, porque a América Latina ajudou a construir o movimento mundial a favor dos direitos humanos, tal como hoje o conhecemos."
Quando se referiu às melhorias sociais feitas na América Latina, elogiou o programa "Fome Zero" do presidente Lula.
Encontro Alternativo
A abertura do evento também teve o discurso de um representante do Encontro Social Alternativo, que ocorreu paralelamente à 13ª Cúpula Ibero-americana.
O líder indígena Carlos Medina fez uma longa apresentação em que leu as deliberações do encontro organizado pelos movimentos sociais, organizações não-governamentais, indígenas, estudantes e camponeses bolivianos.
Ele também aproveitou para criticar o projeto da Área de Livre Comércio das Américas.
"Este é um sistema perverso, que inundará ainda mais nossos países de produtos estrangeiros, acabando com a pouca produção que temos", afirmou o indígena.
"Com a Alca não poderemos competir com igualdade com os Estados Unidos", concluiu.