As chances de um brasileiro ser escolhido para substituir João Paulo 2º podem ser reduzidas por causa dos cardeais dos demais países latino-americanos que fazem parte do Colégio de Cardeais do Vaticano.
Essa é a opinião de Fernando Altemeyer, professor do departamento de Teologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
"Os cardeais desses países não têm votado em brasileiros para as comissões episcopais", explicou ele à BBC Brasil.
"Além disso, a Conferência Latino-Americana teve nos últimos 25 anos uma trajetória extremamente conservadora, que só recentemente mudou. Isso fez com que o episcopado brasileiro fosse considerado muito liberal pelos seus 'hermanos'."
Dos 135 cardeais aptos a escolher o próximo papa, seis são brasileiros: os arcebispos dom Serafim Fernandes de Araújo (Belo Horizonte), dom Aluísio Lorscheider (Aparecida do Norte), dom José Freire Falcão (Brasília), dom Cláudio Hummes (São Paulo), dom Geraldo Magela Agnello (Salvador) e dom Eusébio Oscar Scheid (Rio de Janeiro), que foi empossado nesta terça-feira.
Segundo o professor Fernando Altemeyer, o grupo se caracteriza por um perfil conservador.
"São arcebispos ligados a cidades importantes, com idade média ultrapassando os 65 anos, que têm levado adiante o diálogo inter-religioso e possuem uma disciplina muito concreta nas questões de sacramento e de moral sexual", afirmou.
Asiático
João Paulo 2º foi o primeiro papa não italiano em 450 anos e, segundo o correspondente da BBC no Vaticano, Peter Gould, muitos religiosos acreditam que o papado deve voltar para as mãos dos italianos.
Os italianos representam um em cada oito cardeais. Nos últimos anos, entretanto, o número de cardeais italianos no grupo que tem direito a voto tem caído. Há seis deles entre os novos cardeais, elevando o total de representantes do país para 23 – 17% do corpo eleitoral.
Os cardeais europeus representam a metade dos cardeais e formam o segundo maior grupo no conclave.
Desde a nomeação do polonês João Paulo 2º, em 1978, a porcentagem de cardeais do Leste Europeu dobrou.
Religiosos dos países em desenvolvimento agora são 38% dos eleitores, com o maior número deles vindos da América Latina, onde vive quase metade dos católicos do mundo.
Por esse motivo, contrariando Altemeyer, o sociológo canadense Ted Hewitt, especializado no estudo de religiões, diz que o próximo papa pode ser um brasileiro.
"É muito provável que o substituto de João Paulo 2º venha de um país em desenvolvimento. E, dentro dessa possibilidade, a lógica é que ele venha do Brasil, já que é o país com mais católicos do mundo em desenvolvimento", disse Hewitt à BBC Brasil.
Já Altemeyer acredita que novo papa será asiático.
"O grande desafio da Igreja nos próximos 50 anos será se expandir para a Ásia, uma vez que, no último século, o catolicismo cresceu bastante na África e se consolidou na América Latina", disse.
Mas o teólogo lembra que, em 1978, um dos nomes mais cotados para assumir o papado foi dom Aluísio Lorscheider.
"Ele só não foi eleito porque tinha cinco pontes de safena", disse Altemeyer. "Mas ele é um grande eleitor, pois há isso também nos conclaves: em torno de grandes figuras, reúnem-se também os votos de cardeais mais novos ou de países menores, que vão formar os blocos que tentam atingir os 90 votos necessários para aprovar um nome."