O boliviano Gonzalo Sánchez de Lozada seguiu o caminho de tantos outros antecessores no poder em turbulentos países latino-americanos.
Enxotado do palácio por sangrentos protestos populares, ele pegou o avião e foi para Miami.
A trama não chegou a ser exatamente de romances clássicos de Miguel Angel Astúrias ou Gabriel Garcia Márquez.
Sánchez de Lozada, também conhecido como El Gringo, era um dirigente moderno: atendia aos interesses econômicos americanos, mas em um cenário de democracia.
Democracia ameaçada
O "Consenso de Washington", que vem se desmontando nos últimos anos na América Latina, determina não apenas livre mercado (com muita privatização e o abraço da globalização), mas liberdade política.
Bruce Bagley, especialista em política andina da Universidade de Miami, adverte que hoje na Bolívia de tantos golpes e tanta pobreza, os "objetivos gêmeos da política externa americana – reformas de mercado e democracia – estão ameaçados".
Os protestos contra Sánchez de Lozada irromperam com os planos de exportação de gás para os Estados Unidos, através do Chile, antigo inimigo da Bolívia.
Mas, em meio à arrogância de uma elite econômica representada por El Gringo e à demagogia de líderes populistas como Evo Morales, o pano de fundo das manifestações era o ressentimento generalizado contra as políticas econômicas ao gosto do governo americano e do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Dignidade
Em termos mais imediatos, a questão do gás foi uma desculpa usada por dirigentes indígenas e cocaleros para expressar a frustração popular com o “Plan Dignidad”.
Esse plano imposto pelos americanos tem o objetivo de erradicar as plantações de coca e substituí-las por outros cultivos.
O plano foi parcialmente bem-sucedido – freqüentemente por meio de violência e confisco. A primeira fase está sendo cumprida à risca.
Mas, após cinco anos, ele semeou mais rancor do que dignidade e pouca prosperidade, além de instabilidade política.
Não é à toa que a segunda força política do país nas últimas eleições (agora provavelmente a primeira) foi o Movimento ao Socialismo, de Evo Morales, que é uma caixa de ressonância e mobilização dos pequenos plantadores de coca.
A frustração agrícola se converteu em um discurso antiliberal e antiglobalização.
Sensibilidade americana
Carlos Mesa, o sucessor de Sánchez de Lozada, promete continuar com o programa de erradicação da coca.
A promessa deve satisfazer os americanos, mas sem dúvida tornará ainda mais fértil o confronto com os cocaleros de Evo Morales.
O especialista Bagley, de Miami, insiste nas suas advertências: agora cabe ao governo George W. Bush adotar uma política sócio-econômica mais sensível na Bolívia.
Assim que chegou a Miami, El Gringo deu uma entrevista dizendo que no seu último encontro com o presidente Bush advertira sobre o quadro de instabilidade social no seu país e lamentou que Washington não dera os US$ 150 milhões (aproximadamente R$ 433 milhões) de ajuda que ele solicitara.
Segurança e drogas
Em relação à América Latina, o governo Bush tem uma mistura curiosa de intervenção arrogante e negligência incompreensível.
Riordan Roett, professor da Universidade Johns Hopkins e um dos mais citados especialistas em assuntos latino-americanos nos Estados Unidos, não se mostra otimista.
Ele diz que a “política norte-americana para a região raramente vai além de segurança e drogas”.
Na Bolívia da pobreza, dos golpes e da coca, não haverá estabilidade enquanto os gringos (locais e estrangeiros) não investirem em uma agenda de desenvolvimento.