Uma missão conjunta do Brasil e da Argentina chegou nesta sexta à Bolívia para participar das negociações para acabar com o conflito que já deixou mais de 70 mortos no país.
Mas para o cientista político boliviano Eduardo Gamarra, diretor do Centro de Estudos da América Latina e do Caribe da Universidade Internacional da Flórida, a missão de Brasil e Argentina deveria ter chegado antes.
"A participação internacional, particularmente de Argentina e Brasil, e de qualquer agência multilateral, é algo positivo, mas possivelmente a essas alturas seja muito tarde, precisamente porque o presidente Sánchez de Lozada perdeu o apoio de vários grupos que apoiavam o governo até o começo da semana", disse.
Já a participação dos Estados Unidos na resolução do conflito não é vista com bons olhos pelos bolivianos.
Cocaleiros
Os Estados Unidos têm uma política de erradicação de folhas de coca na Bolívia que é muito criticada e causa muito ressentimento entre a população indígena local. O principal opositor do regime, Evo Morales, é um líder cocaleiro.
Para Gamarra, os Estados Unidos não têm possibilidade de contribuir de maneira construtiva na busca de uma solução para o conflito.
"Todos os grupos de oposição estão contrários à participação americana, de qualquer forma. O problema principal neste momento é que os Estados Unidos fecharam com a opção Sánchez de Lozada", disse.
Segundo o cientista político, os Estados Unidos afirmam que Morales tem contatos com o líder líbio, Muammar Kadafi, e com Hugo Chávez, presidente da Venezuela.
Os Estados Unidos também criticam o fato de Morales ter, supostamente, vínculos com o grupo extremista Sendero Luminoso, no Peru, além da ELN e das Farc, na Colômbia.
"Se Evo Morales chega ao poder na Bolívia, o país poderia se converter em uma espécie de Líbia da América do Sul, segundo os Estados Unidos", disse Gamarra.
Atualmente, a situação é mais explosiva em La Paz, mas a agitação está se espalhando por toda a Bolívia.
Constituição
Gamarra afirma que a saída do presidente Gonzalo Sánchez de Lozada, como quer a oposição, representaria uma violação da Constituição boliviana.
Ele lembrou que os Estados Unidos estão apoiando Sánchez de Lozada. Em declarações oficiais, os Estados Unidos lembraram que ele é o presidente constitucional e que a entrega do poder ao vice-presidente, Carlos Mesa, constituiria uma espécie de golpe de Estado.
Por enquanto, não há previsão de participação da ONU nos conflitos do país, nem enviando suprimentos e medicamentos, nem como mediadora entre o governo e a oposição.
Para Gamarra, a ONU deveria participar desse processo.
"É a única organização com capacidade de intervir de maneira que todos os grupos aceitem seu papel de mediadora. Mas a posição oficial de Kofi Annan (secretário-geral da ONU) é de que se deve respeitar o procedimento constitucional", afirmou.
O estopim do conflito foi um projeto do governo para vender gás natural para os Estados Unidos por intermédio do Chile. O gás é a principal riqueza natural da Bolívia.
Muitos bolivianos afirmam que a operação só vai trazer riquezas para os estrangeiros.