A proposta feita pelo governo argentino, de uma média de 75% de desconto na sua dívida em moratória, há 21 meses, não gerou nervosismo no mercado financeiro, mas mereceu repúdio generalizado dos que investiram suas economias nos títulos públicos do país – entre eles, muitos aposentados.
O representante dos investidores italianos, Mauro Sandri, classificou a medida de um “novo calote” e a definiu como “um escândalo” e impossível de ser aprovada.
Na Alemanha, onde também foram comprados papéis da dívida argentina, a reação não foi diferente.
O mesmo ocorreu na própria Argentina, onde estão, segundo o secretário de Finanças, Guillermo Nielsen, cerca de 40% dos que sofreram com a moratória, declarada em dezembro de 2001.
Ouvidos pela BBC Brasil, o investidor argentino Gustavo Pierino Garrafa, de 42 anos, um dos fundadores da Associação dos Danificados com a Pesificação e a Moratória, e o economista Júlio Piekarz, da consultoria IBCP, acreditam que o governo deverá melhorar esta primeira proposta.
Interrogações
“Eu tinha dinheiro para comprar uma casa, mas acreditei no discurso nacionalista do governo e apliquei tudo o que tinha nos papéis do meu país. Resultado, hoje nao tenho nada”, lamenta Pierino Garrafa. “A nossa expectativa é de que o governo melhore, e muito, o que nos oferece agora”.
Piekarz observa que o anúncio feito pelo ministro da Economia, Roberto Lavagna, em Dubai, nos Emirados Árabes, deixa muitas interrogações mas ressalva:
“O governo escolheu um caminho mais cômodo, com menos sacrifícios, mas em compensação que nos dificultará ainda mais a voltar ao mercado de capitais”, disse Piekarz.
Para ele, tudo poderia ter sido diferente, se o governo tivesse concordado em assinar um acordo com o FMI (Fundo Monetário Internacional) com maior compromisso de corte no gasto público – nao só de 3%, como ficou estabelecido no acordo anunciado no fim de semana, apesar de este índice ser o maior já exigido da Argentina.
Credibilidade
Pierino Garrafa e o engenheiro aposentado Eduardo de la Fuente, de 67 anos, que integram a mesma associação, informam que vão esperar nova proposta do governo para, então, definir se apelarão ou não à Justiça.
Piekarz acredita que haverá uma “catarata” de novas ações contra o governo argentino.
Na sua opinião, a Argentina escolheu um rumo diferente do que foi traçado pela Rússia e também pelo Equador, que preferiram pagar para voltar a ter credibilidade do mercado financeiro e investidores.
“Agora quando ouvirem falar na palavra Argentina, vão sair correndo”, diz o economista Daniel Artana, da Fiel, Fundação de Investigação Econômica Latino-americana.
Transparência
Braço direito do presidente Néstor Kirchner, o chefe de gabinete da Casa Rosada, Alberto Fernández, reconheceu que a briga poderá ser intensificada nos tribunais.
Numa entrevista à imprensa, ele ressaltou: “Queremos chegar a um acordo e a negociação só está começando”.
Para o próprio Kirchner, a Argentina deu um passo importante para a maior “transparência” no país.
Em outros tempos, afirmou ele a parlamentares com os quais se reuniu na segunda-feira, os argentinos nao seriam informados sobre este passo do governo.
Moratória
Agora, ressaltou, todos os dados foram colocados pelo governo na internet.
Nesta terça-feira, haverá reuniões tanto entre os investidores argentinos, que não querem sofrer perdas com suas aplicações, tanto entre aqueles que têm seus recursos destinados aos fundos de pensão – as chamadas AFJPs (Associaçoes Federais de Aposentadorias e Fundos de Pensão), cujo patrimônio está em discussão desde que o então ministro da Economia, Domingo Cavallo, as obrigou a aplicar o dinheiro dos futuros aposentados em títulos do Tesouro argentino, agora em moratória.
Os que quiserem aceitar a proposta do governo, lembra Julio Piekarz, deverão conformar-se em trocar seus papéis atuais por outros três novos títulos e abrir mão dos juros que poderiam ter sido acumulados entre 2001 até hoje, mais os descontos anunciados.