O Brasil pode se beneficiar da maior flexibilidade mostrada pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) no acordo fechado na semana passada entre o órgão e a Argentina.
Essa é a opinião do economista Marcello Averbug, ex-Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e hoje consultor independente de organismos internacionais em Washington.
O economista foi um dos convidados desta quinta-feira do programa De Olho no Mundo, uma co-produção da BBC Brasil e da Rádio Eldorado AM de São Paulo.
Segundo Averbug, "para uma economia crescer, não basta aumentar o consumo e a utilização da capacidade instalada. Ela também precisa de novos investimentos. Por isso, o Brasil ainda precisa manter boas relações com o fundo. Acordos vantajosos funcionam como referência para o mercado financeiro internacional".
Desempenho
Averbug disse que o ponto mais interessante do acordo entre o FMI e a Argentina é que ele não estabeleceu metas de longo prazo de desempenho fiscal.
"Diferente de outros acordos, este estabeleceu apenas a meta de 3% no superávit primário em 2004, deixando os outros itens para serem negociados depois. Mais do que flexibilização, eu diria que o acordo é um encontro maior do FMI com a realidade. Essa postura mais sincera na relação entre o Fundo e a Argentina pode beneficiar os demais países da América Latina", explicou o economista.
Na quarta-feira, um órgão independente que analisa a postura do Fundo já havia sugerido que o FMI mudasse sua postura, adotando essa maior flexibilidade.
Averbug contou que, na época da crise argentina, todos os economistas sabiam que o país fingia que aceitava as metas do FMI na área monetária e de comércio exterior, e o fundo fingia que não percebia que a Argentina não estava conseguindo cumprir as metas.
Contudo, o economista acha que, como o acordo fechado semana passada, o grau de fingimento será menor.
Culpa
Ricardo Caldas, cientista político da Universidade de Brasília especializado em economia internacional, criticou ainda a postura brasileira de culpar o exterior, e muitas vezes o FMI, pelas dificuldades econômicas enfrentadas pelo país.
"Se a culpa fosse só externa, o Brasil não estaria precisando fazer as reformas da previdência, tributária. É fácil culpar os outros pela pobreza, quando não se faz o dever de casa", avaliou o cientista, que também participou do De Olho no Mundo.
Caldas comentou a mais recente projeção do FMI, de que o Brasil vai crescer apenas 1,5% em 2003, enquanto outros emergentes como a China e a Índia vão crescer, respectivamente, 7,5% e 5,6% este ano.
"O crescimento é medíocre, resultado de anos de adoção de um modelo econômico equivocado, principalmente no comércio", disse o especialista.