Futebol também tem filosofia. Os 4 x 2 do Real Madrid sobre o Olympique de Marseille são uma prova.
Confirmam a teoria de que há times que só mostram sua grandeza quando é necessário.
Na rodada de abertura da Liga dos Campeões, o Real começou frio: nenhum chute a gol até os 17 minutos; aos 26', perdia por 0 x 1 (Didier Drogba).
Então apareceu a filosofia. Equipe grande provocada, equipe grande que goleia.
Em nove minutos o Real Madrid dos nove títulos da Liga dos Campeões fez o que não saiu nos instantes anteriores. Aos 29', Roberto Carlos marcou um dos gols mais bonitos da carreira dele. Pegou a bola no alto de trivela, sem tocar no chão, e de fora da área mandou um chute com efeito que encobriu o goleiro croata Runje Vedran.
Aos 34', Ronaldo marcou o primeiro dele: 2 x 1. Outro aos 12' do segundo tempo. Dois minutos mais tarde, Roberto Carlos foi derrubado na área; penalty cobrado por Figo para fazer 4 x 1.
E além da nova ameaça do Olympique (Daniel Van Buyten marcou aos 38'), o time mais badalado do mundo ainda poderia ter tido um penalty sobre Ronaldo no final do jogo. O árbitro não apitou, e o pentacampeão reclamou.
"Eu tinha vantagem sobre o zagueiro. A jogada foi bastante clara, se ele não me derruba, teria entrado tranquilamente. Para mim, foi uma arbitragem injusta", disse Ronaldo.
Mais contente saiu Beckham. Estreava na liga continental com o novo clube e comentou que estava orgulhoso.
"Ganhamos dando espetáculo". Para ele, também já há filosofia: grandes craques brilham em grandes times. Em quatro partidas oficiais, segundo a imprensa espanhola, Beckham deixou de ser um produto de marketing para tornar-se o dono do melhor passe do campeonato.
Coração dividido
Mas apesar dos gols brasileiros e da estréia de Beckham, o mais emocionado da noite foi um francês com o coração dividido por esse jogo. Zidane enfrentava o time do qual é torcedor.
Nascido em Marseille, Zidane jamais escondeu a paixão que tem pelo Olympique desde criança.
Nunca conseguiu jogar no time do coração. De uma equipe amadora de bairro na cidade natal saiu para o Cannes, logo para o Girondins de Bordeaux, até deixar a França rumo à Juventus de Turim.
Zidane foi recebido com carinho pelos três mil torcedores franceses que estiveram no estádio Santiago Bernabéu, gritando Zizou, Zizou (apelido do jogador) e balançando os braços em gestos de louvor.
O campeão mundial respondeu aplaudindo a torcida marselhesa e cumprimentando cada jogador do Olympique.
Mas até Zidane teve sua noite de filosofia. Uma defendida por Romário: "Dentro de campo, do lado contrário eu não conheço nem a minha filha", costuma dizer o Baixinho. Pois o amor de Zidane pelo Olympique ficou congelado durante o jogo.
"No jogo, eu não quero saber de nada. Meu clube é o Real Madrid e não me preocupo pelo adversário. Joguei como tinha que jogar e tentei não pensar. Agora que acabou a partida, sou outra vez torcedor do Olympique. Me deu muita alegria ver as pessoas gritando Zizou, e eu agradeço", disse Zidane.
O time francês esteve valente, rápido e criou oportunidades. Mas encontrou o Real em uma noite daquelas. Com a vitória na Liga dos Campeões e a do final de semana passado no campeonato espanhol, o time galáctico soma 11 gols em dois jogos.
"Não sei se é bom que a torcida se acostume com essas goleadas. Nós vamos sempre tentar marcar muitos gols e jogar para frente, mas algum dia vamos ganhar de 1 x 0 e não sei o que vão dizer. Temos que lembrar que o que vale são os três pontos", disse Ronaldo.