Depois de 11 de setembro, da subsequente ofensiva no Afeganistão, da ocupação americana do Iraque, a idéia de um 'choque de civilizações' entre o Ocidente e o mundo islâmico foi exumada em alguns círculos.
Um punhado de políticos, cristãos evangelistas e comentaristas no Ocidente, por exemplo, vêem os muçulmanos e sua fé como 'inclinadas para a violência' e, portanto, com tendência de destruir seu 'estilo de vida civilizado'.
Dentro do mundo muçulmano há grupos que estão convencidos de que o Ocidente, especificamente os Estados Unidos, fizeram do mundo islâmico e de seu povo como seu principal alvo e não vão descansar enquanto não os subjugar totalmente.
Mas a realidade mostra que ambas essas visões estão erradas.
Não é só gente no Ocidente que encara os ataques suicidas contra o World Trade Centre e o Pentágono como atos abomináveis. Muçulmanos em toda parte condenaram a matança de inocentes.
Dicotomia
Da mesma forma, não foram apenas muçulmanos que se revoltaram contra a invasão do Afeganistão e do Iraque.
Milhões de pessoas no Ocidente protestaram. De fato, seus protestos, especialmente no caso do Iraque, foram muito mais maciços do que o que transpirou nos países muçulmanos.
Isso mostra que nas questões fundamentais de justiça, de certo e errado, que confrontam a humanidade hoje, não há dicotomia entre o Ocidente e o mundo islâmico.
Se houver alguma dicotomia, é entre as elites dominantes e o povo.
A crise do Iraque expôs essa nova divisão em vários países muçulmanos e em algumas sociedades do Ocidente.
É importante que as pessoas no Ocidente e no mundo muçulmano tomem consciência disso e se recusem a ser arrastados para uma briga falsa e artificial entre as civilizações.
A ameaça real ao nosso bem-estar emana de interesses ocultos que estão determinados a perpetuar sua hegemonia global, militar, política, econômica e cultural.
Embora o ponto-focal dessa hegemonia global seja Washington, seu poder é sustentado por toda uma rede de elites, inclusive governantes do mundo muçulmano!
Objetivos compartilhados
Como reação a este poder hegemônico coletivo, uma facção dentro do mundo muçulmano optou por confrontar injustiças globais e domésticas através da malévola arma da violência e do terror.
Em meio a este desafio duplo de hegemonia e terror, as pessoas nas sociedades ocidentais e nos países muçulmanos que estão genuinamente comprometidas com um mundo justo, deveriam reafirmar sua fé em mudanças políticas pacíficas.
Isso deveria se tornar o objetivo compartilhado dos povos em ambas as civilizações, e dos seres humanos em toda parte.
Recentes eventos mostraram que nós, os povos do mundo, somos capazes de transcender barreiras étnicas, religiosas, culturais e de civilização na busca de justiça e paz.
Quando uma luta de significação tão monumental para o futuro da raça humana nos aguarda, como nós podemos permitir que um choque de civilizações falso desvie nossas energias?
Faz realmente sentido falar em "Ocidente" e "mundo islâmico" como duas entidades separadas, distintas?
O Ocidente, como uma criação de civilização, não existiria dentro do mundo muçulmano? Instituições políticas, sistemas econômicos e valores culturais associados à civilização ocidental se tornaram parte das sociedades muçulmanas ao longo dos últimos dois séculos.
Da mesma forma, os muçulmanos constituem uma importante minoria em quase todos os países da Europa e da América do Norte hoje.
Além disso, a civilização islâmica desempenhou, no passado, um grande papel em moldar a renascença européia. Como o islamismo foi parte do Ocidente e o Ocidente foi parte do mundo islâmico, isso não é a única razão pela qual nós devemos parar de dar credibilidade à tese de "choque de civilizações".
Estruturas de poder
Numa situação onde as fronteiras geográficas estão se tornando mais relevantes e as fronteiras culturais estão se tornando menos reais, de nada serve reforçar as barreiras de civilização que, de qualquer forma, não existem.
Para entender a evolução do cenário global, pode ser mais útil pensar em termos de estuturas globais de poder e interesses globais.
Essa abordagem vai esclarecer melhor as realidades existentes no Ocidente e no mundo muçulmano e o relacionamento entre as duas civilizações.
É quando nos deparamos com essas realidades que nós percebemos que não é o choque de civilizações que é a questão real, mas a luta por um mundo justo onde todos os seres humanos podem viver em paz e com dignidade.
Chandra Muzaffar é um cientista político malaio que publicou muitos textos sobre religião, direitos humanos, política da Malásia e relações internacionais.