O dossiê do governo britânico sobre armas no Iraque continha trechos que não foram considerados precisos por cientistas encarregados de analisar dados de inteligência sobre o país, afirmou Brian Jones, o chefe do grupo técnico encarregado de estudar as informações do documento.
Jones depôs nesta quarta-feira no inquérito sobre a morte do especialista em arma, David Kelly, na Corte Real de Justiça, em Londres.
Kelly apareceu morto dias após ter sido apontado publicamente como a fonte de uma reportagem da BBC que sugeria que o governo britânico havia "maquiado" trechos do dossiê para fortalecer a posição pró-guerra.
De acordo com Jones, alguns dos integrantes do grupo que ele coordenava não ficaram satisfeitos com a inclusão da informação de que o Iraque poderia ativar armas de destruição em massa em 45 minutos, como dizia o documento.
'Segunda mão'
Jones disse que a fonte da alegação dos “45 minutos” atribuiu a uma terceira pessoa a informação – portanto o que o dossiê revelou não partiu de nenhum dos cientistas que trabalhavam no documento.
A testemunha também disse que não teve a impressão de que essa fonte conhecia bem o assunto sobre o qual estava falando.
Isso porque, explicou Jones, a fonte não detalhou os agentes químicos ou biológicos que poderiam ser usados, quais eram as armas a que ele se referia e em que condições poderiam ser usadas ou mesmo se havia indícios de testes recentes.
A equipe de Jones teria manifestado a ele sua preocupação de que o dossiê era “forte demais”, na sua tentativa de provar que o Iraque representava um perigo para os britânicos e a comunidade internacional.
Mudanças negadas
Brian Jones, inclusive, disse que sua equipe sugeriu que fossem feitas mudanças, mas o pedido teria sido ignorado pelo governo britânico.
De acordo com o repórter da BBC Barnaby Mason, que acompanhou o depoimento, o inquérito já havia recebido anteriormente a informação de que analistas de inteligência haviam escrito uma carta manifestando suas dúvidas quanto ao dossiê.
No entanto, Mason acredita que as declarações de Jones devem trazer de novo à tona uma polêmica que o governo britânico pensava que já havia sido esclarecida.
De acordo com analistas, o depoimento sugere, novamente, que o gabinete do primeiro-ministro Tony Blair exagerou na ameaça oferecida pelo Iraque, reforçando assim as razões para iniciar uma ofensiva militar contra o país.