O brasileiro Sérgio Vieira de Mello poderia ter sido o próximo secretário-geral das Nações Unidas, destacam vários jornais internacionais na ampla repercussão que a morte do representante da ONU teve no exterior.
"Vieira de Mello era sempre citado como um futuro secretário-geral, embora a tradição da ONU dite que o próximo candidato da América Latina teria que esperar outros 20 anos até que a região volte a ocupar o cargo", afirma o jornal Financial Times, da Grã-Bretanha.
O último latino-americano no posto foi o peruano Javier Pérez de Cuellar (1982-91).
Outra publicação britânica, The Guardian, diz que sua reputação de lidar com distinção com as tarefas "das mais difíceis" fazia de Vieira de Mello um forte candidato para o cargo hoje ocupado pelo ganense Kofi Annan.
A especulação também é feita pelos jornais americanos The New York Times e The Washington Post.
Com o título "Assassinato de um reconstrutor de nações", o editorial do jornal The New York Times lamenta o ato "niilista" que matou "um grande campeão da paz e da reconciliação".
"Vieira de Mello representava o serviço civil internacional no que há de melhor", afirma o NYT.
"Urbano, ativo, poliglota, acessível, não burocrático, trabalhador e inteligentíssimo, ele era uma propaganda ambulante do sistema da ONU", diz o Guardian.
Bush
O fato de ter "encantando" o presidente americano, George W. Bush, em uma visita à Casa Branca, em março, também foi decisivo para que Vieira de Mello fosse nomeado para o cargo de representante da ONU no Iraque, segundo o jornal americano The Washington Post .
"Depois disso, Bush disse que este era o homem que ele queria (no Iraque)", afirmou Robert Gelbard, um ex-embaixador dos Estados Unidos na Indonésia, ao jornal.
O jornal destaca o significado dessa empatia em um momento de tensão nas relações entre Estados Unidos e ONU, por causa justamente da guerra no Iraque.
Vieira de Mello teria, por exemplo, conseguido convencer o administrador dos Estados Unidos no Iraque, Paul Bremer, da importância de conceder poderes de fato ao Conselho Provisório do Iraque, destaca o Libération.
No entanto, outros jornais, como o espanhol El País, questionam a qualidade das relações entre Vieira de Mello e Bremer.
Segundo o El País, ainda resta saber qual era a real influência do brasileiro sobre Bremer.
De qualquer forma, com o título "A paixão pelo diálogo", o jornal afirma que o mundo perde um homem que buscou o diálogo de forma incansável.
"Sem ele no Iraque, o objetivo (de construir um Iraque democrático) ficará cada vez mais elusivo para os americanos, para os iraquianos e para o resto do mundo", endossa o Washington Post.
O Libération concorda, ressaltando as qualidades de Vieira de Mello como mediador. No Iraque, diz o jornal, encontrou aiatolás, curdos, líderes políticos, representantes da sociedade civil e chefes tribais, a fim de consolidar a vontade iraquiana.
As qualidades mais destacadas de Vieira de Mello foram o seu pragmatismo e a sua seriedade como mediador, que o faziam ser reconhecido por lados inimigos em um conflito.
Os atributos pessoais do brasileiro também ganham grande destaque nos jornais da França, onde Vieira de Mello estudou.
O Le Monde define Vieira de Mello como um homem "brilhante e encantador, que falava várias línguas" e que teria feito toda a sua carreira nas Nações Unidas, após ter estudado filosofia em Paris e haver obtido um doutorado na Sorbonne.
Outra publicação francesa, o Le Figaro, diz que “este elegante diplomata brasileiro, poliglota e plenamente francófono" definiu a si mesmo, em uma entrevista ao jornal, como um "ex-geração 68".
Mas os maiores elogios a Vieira de Mello são feitos quando se fala de seu trabalho no Timor Leste - a mais bem-sucedida missão de reconstrução da ONU, nas palavras do Washington Post.
"Foi onde talvez sua audácia e tenacidade brilharam mais, porque pôde demonstrar a quem quisesse ver que os direitos humanos não são teoria", afirma o El País.
Apesar das especulações sobre o futuro de Vieira de Mello, o jornal The Washington Post afirma que o que ele realmente queria era finalmente morar em uma casa, que acabara de comprar em Genebra, na Suíça, com a namorada - uma argentina, segundo o jornal.
De fato, ainda de acordo com o Post, Vieira de Mello só teria ido para o Iraque por causa de Annan, que precisava de alguém em que confiasse e que a Casa Branca aceitasse.