O advogado Guilherme de Almeida, que trabalhou com Sérgio Vieira de Mello no Acnur (Alto Comissariado da ONU para Refugiados), acha que o atentado ao escritório da Onu em Bagdá vai obrigar a organização a repensar o seu papel.
"A finalidade dela (da Onu) é exatamente evitar a guerra. Se ela foi atacada é porque ela está sendo vista como inimiga para o estabelecimento da paz", afirma Almeida, também pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Usp.
Ele acha que, ao reconhecer a administração americana no Iraque, a ONU pode estar contribuindo exatamente para acirrar tensões, acirrar conflitos e tirar a legitimidade das Nações Unidas como um organismo que deve zelar pela paz internacional.
"A função das Nações Unidas está sendo questionada na sua raiz", afirma. "E aí é preciso pensar numa forma de superar essa crise, porque mais do que nunca precisamos de um organismo internacional, não submetido a nenhuma forma de estado soberano, para lidar com essa delicadíssima situação."
Recuperação
O cientista social Paulo Sérgio Pinheiro, coordenador do Núcleo de Estudos da Violência, da USP, e ex-secretário nacional de Direitos Humanos, discorda.
“Há uma crise no Conselho de Segurança, quando ele foi ultrapassado na decisão contrária à guerra. Mas a presença do Sérgio no Iraque mostrava a recuperação do papel da ONU”, afirma Pinheiro.
“A decisão do secretário-geral foi acertada e ele deve nomear outra pessoa para continuar o trabalho”, afirma Pinheiro, que está em Genebra, justamente no escritório do Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU, onde Vieira de Mello é titular e para onde deveria voltar no início de setembro.
“A morte anunciada da ONU já aconteceu tantas vezes”, ironiza.
Ele concorda, no entanto, que o alvo dos ataques é o governo dos Estados Unidos.
“Eles só não atacaram os escritórios do governo americano porque eles têm uma proteção maior. É, ainda por cima, um ataque covarde”, afirma.