Hoje em dia, dirigir nas ruas de Bagdá pode ser uma experiência complicada e frustrante.
Algumas das ruas estão fechadas por barreiras militares das forças de coalizão, e o trânsito no rush matutino praticamente pára o centro da cidade.
Além disso, há a questão dos nomes de rua. As pessoas já se acostumaram com a mudança de nomes das principais vias da cidade no último século.
Quando a monarquia foi derrubada na década de 50, as ruas com os nomes dos reis e rainhas iraquianos foram modificadas.
Baath
Depois disso, quando o partido Baath chegou ao poder, os nomes que homenageavam a revolução foram trocados outra vez.
Agora que Saddam caiu, tudo que tinha o nome dele está sendo rebatizado.
O problema é que, como não existe um governo de verdade neste momento, os nomes das ruas estão sendo mudados por pessoas que decidem por conta própria como rebatizá-las.
Como seria de se esperar, é o caos.
Confusão
Eu pedi a um dos motoristas contratados pela BBC em Bagdá, Dylan, que me levasse para um passeio com o nosso intérprete, Mohammed.
"Vamos à Universidade de Saddam", disse Dylan.
"Você ainda chama aquilo de Universidade de Saddam?", perguntei.
"Não, o nome mudou", respondeu o motorista.
"Mas você acabou de se referir a ela como Universidade de Saddam."
"Sim. Isso, porque eu só a conheço como Universidade de Saddam. Não conheço os novos nomes. Não sei dizer todos os outros nomes. Faz muitos e muitos anos que aquilo é a Universidade de Saddam", retrucou Dylan.
No entanto, Dylan e o resto dos iraquianos vão ter que se acostumar com as mudanças.
Paramos em frente à universidade.
A nova placa no muro diz Universidade de Nahrain – ou: Universidade dos Dois Rios, em alusão aos rios Tigre e Eufrates.
Desaparecidos
Vários nomes são novos: o Aeroporto Internacional Saddam e o Hospital Saddam desapareceram.
Há algum tempo, Saddam decidiu mudar o nome de uma rua importante de Bagdá para Yasser Arafat, em homenagem ao líder palestino.
Hoje, no entanto, as placas com esse nome foram retiradas por muçulmanos xiitas, que a rebatizaram com o nome de um santo.
Os xiitas representam 60% da população, mas eram discriminados pelo antigo regime.
As antigas placas para a ponte Al-Kaed (ponte do líder) também foram retiradas.
Uma nova placa, pintada recentemente, indica o novo nome da ponte: Al-Hussein – nome do neto do profeta Maomé.
Ao longo de toda a ponte, o povo entrou na brincadeira e a rebatizou com vários nomes: vários pilares ganharam pichações com nomes próprios.
Restos
Aliás, vêem-se poucas lembranças de Saddam hoje em dia. Basta lembrar que antes o rosto dele adornava qualquer esquina.
Hoje, já não se vê Saddam. Seu rosto foi apagado de cada ponte, cada outdoor.
A rua Abu Nawas também mudou de nome. Nawas foi um poeta árabe, cujo trabalho é célebre por fazer apologia ao vinho.
A rua levava o seu nome por ser o endereço de vários bares e botecos.
No entanto, hoje as placas foram arrancadas e a rua está sendo chamada de Safenat Al-Najat.
'Blair Street'
O meu intérprete, Mohammed, me conta que os xiitas da área queriam mudar o nome por causa de sua relação com o álcool.
"Muitas pessoas aqui vêem motivos para mudar o nome de ruas que homenageavam Saddam Hussein. Eu, pessoalmente, não concordo com a mudança do nome da rua Abu Nawas", diz o intérprete.
"É um nome muito tradicional. É o mesmo que mudar o nome Oxford Street, em Londres, para Blair Street. Não se pode dizer isso", compara.
O problema é que, como em várias outras áreas em Bagdá, os iraquianos estão fazendo as mudanças por conta própria.
Quando a guerra terminou, por exemplo, não havia polícia para ordenar o tráfego, e o povo passou a tentar fazê-lo por conta própria.
Evidentemente, o conselho da cidade tem assuntos mais urgentes para discutir que a mudança dos nomes das ruas, e os nomes antigos não são mais apropriados.
Dessa forma, não há muito o que fazer para evitar que as pessoas troquem os nomes por conta própria.
Mesmo que isso dificulte a vida de pessoas como Dylan.