Há cinco anos, os editores da revista Rolling Stone recrutaram o repórter David Lipsky para escrever um artigo sobre a lendária academia militar de West Point.
Choque de culturas. A Rolling Stone foi, tempos atrás, a vanguarda da contracultura e West Point é um símbolo do establishment, "absolutamente americana", como a definiu o ex-presidente Theodore Roosevelt.
Acostumado a cobrir rebelião estudantil, Lipsky não se entusiasmou com a tarefa.
Afinal, como lembrou o cientista político Samuel Huntington no seu clássico estudo O Soldado e o Estado, a função de academias como West Point é preparar oficiais militares para “administrar a violência”.
Missão
A missão jornalística de Lipsky cresceu e se transformou em um livro, desprovido de contestação e de sarcasmo.
E o leitor, provido de antiamericanismo e de antimilitarismo, deve acompanhar o engajamento de Lipsky com olhos críticos, mas fazendo um esforço para se despojar dos preconceitos.
O autor se mudou para uma cidade perto de West Point (que fica no Estado de Nova York) e passou quatro anos acompanhando os ritmos e rituais da academia.
O resultado é uma rica coleção de retratos de jovens homens e mulheres, sob a intensa pressão adulta de uma instituição de 201 anos, também pressionada para se adaptar à sociedade em torno dela.
Estes retratos de cadetes (e também de instrutores) servem para ilustrar um quadro mais amplo.
Valores
Lipsky escreve no primeiro capítulo que a missão essencial de West Point é “pegar civis e produzir oficiais”.
Mas existe uma competição entre dois sistemas de valores: lá dentro é a ênfase na disciplina, hierarquia, dever, auto-sacrifício e a violência controlada.
Mas as prioridades da sociedade são liberdade, auto-expressão e o prazer.
West Point aceitou negros cem anos atrás (e por décadas persistiram discriminação e crueldade).
Mulheres foram admitidas em 1976 (persistem relatos de assaltos sexuais).
'Bunker'?
Lipsky escreve que a academia não é um bunker inexpugnável e não resiste ao assédio de questões como “sexo, identidade, globalismo, multiculturalismo, pluralismo e o bem-estar”.
Cadetes que estão sendo treinados para comandar e “administrar a violência” hoje têm cursos sobre redução de estresse e nutrição.
A busca do bem-estar não significa que a tradição de um rigor físico esteja sendo abandonada.
Em West Point convivem Esparta e Atenas. Um dos perfis mais fascinantes é o de George Rash.
Tudo indica que este tocador de tuba vai fracassar e ser expulso da academia por inaptidão física.
Pressão
Rash está sob constante pressão dos instrutores, além de ser desprezado pelos demais cadetes.
Meio marginalizado, ele sobrevive e absorve o “ethos” de West Point.
Termina os quatro anos de curso em penúltimo lugar, mas é um oficial do Exército americano.
Lipsky termina por admirar a instituição, mas este sentimento não deve ser confundido com uma patriotada barata.
Dilemas
Sua missão essencial é mostrar os dilemas e conflitos em West Point. Os tempos mudaram.
Quando Lipsky chegou à academia, havia frustração entre os cadetes com a falta de um propósito definido no mundo pós-Guerra Fria.
Com os atentados de 11 de setembro de 2001 e as guerras no Afeganistão e Iraque, algumas questões encontraram respostas.
Hoje, um número recorde de graduados em West Point escolhe a infantaria como carreira.
ABSOLUTELY AMERICAN
David Lipsky
Houghton Mifflin, 317 paginas, US $25.