Mahmoud Abbas tem poucos amigos, muitos inimigos e um aliado todo-poderoso.
O apoio americano é uma benção e uma maldição para o primeiro-ministro palestino, há pouco mais de três meses em uma precária e acidentada jornada rumo a um dificílimo acordo de paz no Oriente Médio.
Abbas será eternamente grato ao governo Bush. Seu cargo, no fim das contas, é uma invenção americana. Existe em contraposição a Yasser Arafat, com quem os americanos e o governo do israelense Ariel Sharon não querem conversa e fazem o que podem para eliminar, ao menos politicamente.
O drama é que cada voto de confiança que Abbas recebe de Washington fortalece a percepção nas ruas de Gaza ou Ramallah que a serventia maior do primeiro-ministro não é aos interesses palestinos.
Projetos Sociais
A Casa Branca, por exemplo, decidiu fornecer pela primeira vez fundos diretamente à Autoridade Palestina para projetos sociais.
São apenas US$ 20 milhões. O valor político é muito maior. Trata-se de um investimento em Abbas e um contrapeso à assistência social concedida à massa palestina por grupos radicais como Hamas.
O gesto de Washington representa uma aposta ainda mais alta em Abbas, que, num patético realismo, acredita que chegou o momento de romper o ciclo de violência marcado por atentados suicidas palestinos e implacáveis represálias israelenses.
A decisão do governo Bush acontece quando Abbas está sob o fogo cerrado de várias correntes palestinas e se engaja em um intenso teatro político.
Nesta semana, Abbas ameaçou largar o cargo de primeiro-ministro e pediu demissão do comitê central do movimento Fatah (do qual é fundador ao lado de Arafat).
Estopim
O pedido de demissão não foi aceito, e Abbas agora garante que permanece como premiê.
O estopim desta crise é a falta de disposição de Israel para libertar milhares de prisioneiros palestinos, aceitando soltar apenas 350.
A acusação entre muitos setores palestinos é a de que Abbas concede muito a Sharon e recebe pouco em troca nas negociações de paz.
O primeiro-ministro vive essa crise de liderança em meio às dificuldades de implementar um cessar-fogo nas ações armadas contra Israel, desarmar os grupos radicais e criar uma efetiva força de segurança palestina.
Os conflitos dentro do próprio grupo Fatah mostram claramente como é precária a posição de Abbas.
Não se trata apenas da rivalidade com Arafat, mas de dúvidas sobre a competência política e o carisma do primeiro-ministro.
Popularidade
As dúvidas foram reforçadas nas pesquisas feitas pelo cientista político palestino Khalil Shikaki. Em entrevista à National Public Radio, nos EUA, ele disse que os resultados mostram um sério declínio no apoio a Abbas em contraste à crescente aceitação à idéia de reconciliação com Israel e à interrupção de ações terroristas.
Na conclusão de Shikaki, Abbas “simplesmente não é um homem popular nas ruas palestinas”.
Um dos objetivos do teatro político de Abbas dentro do movimento palestino é conseguir mais flexibilidade nas negociações. Mas qualquer avanço do primeiro-ministro que não seja correspondido por Israel será um passo em falso.
O comentarista Gideon Samet escreveu, na quarta-feira, no jornal Haaretz que Sharon deveria empreender gestos ousados de distensão, como uma libertação em massa de prisioneiros palestinos.
Samet advertiu que sem estes gestos podem acontecer o colapso do precário cessar-fogo e novas investidas contra a liderança de Abbas.
Mas tais ousadias da parte de Sharon seriam uma surpresa. Por ora, o investimento maior em Abbas é feito pelo governo americano, o que, vale repetir, é uma benção e uma maldição para o acossado primeiro-ministro.