Jornal cada um faz o seu. Lorde Beaverbrook, famoso magnata da imprensa britânica do século passado, dizia que jornalismo era tudo aquilo que ele conseguia encaixar entre um anúncio e outro.
Todos o admiravam muito por isso. Inclusive, e principalmente, os jornalistas, que, de vez em quando, justiça lhes seja feita, gostam de pegar uma intimidade com a verdade.
Não exercendo a profissão de diretor de redação, o leitor comum vai e escolhe o jornal mais a seu agrado, por estar a “x” centímetros de seu pensamento político ou abrigar os colunistas que mais se aproximam daquilo que ele, consumidor de informação e opinião, julga ser o correto, digno e verdadeiro.
Sem falar nos críticos de cinema e televisão e os responsáveis pelas colunas social e de fofocas. As tiras em quadrinhos já foram bem mais importantes e interessantes que os editoriais, mas esse é outro saudosismo.
Seja lá como for, nosso jornal diário somos nós quem o fazemos. Isso é uma verdade espetacular no Reino Unido, onde as cartas dos leitores, não importa sua coloração política, são invariavelmente mais claras e objetivas que o texto consumido.
Terça-feira, por exemplo. As primeiras páginas dos chamados jornalões gritavam, à inglesa, a possível proibição total da caça com cães, a crise energética que deverá aleijar as ilhas daqui a 20 anos e, mais uma vez, a tediosa notícia de que Tim “O Tigre” Henman chegou às quartas de final em Wimbledon.
Mas e as cartas dos leitores? Quentíssimas como sempre. Estava tudo lá. Britânicos reféns do império norte-americano e suas ambições. Condições no campo de concentração da baía de Guantánamo.
As verdadeiras fontes por trás do chamado “dossiê maroto” que serviu de guia e inspiração para o primeiro-ministro Tony Blair conduzir em paz o país para a guerra.
Presentes também, de forma lúcida e quase sempre semeando a discórdia, tal como deve ser, os direitos de parceiros gays, os transgênicos, o dinheiro auferido pelo Príncipe Charles, o eterno eurocetisismo por aí afora.
É verdade, a imprensa britânica é variada. Mas isso se deve mais a seus leitores do que a seus editores.