O diretor-gerente do FMI (Fundo Monetário Internacional), o alemão Horst Köhler, disse que o organismo e a Argentina já começaram a negociar um novo acordo, que terá três anos de prazo.
Neste período, o país deverá implementar as reformas combinadas com o Fundo, como a fiscal, a do sistema bancário e a jurídica e institucional.
Estas duas últimas são, aliás, o motivo das principais queixas dos empresários que têm investimentos no país.
Ao lado do ministro da Economia, Roberto Lavagna, durante entrevista coletiva, o chefe do FMI reconheceu: “A economia argentina cresceu mais rápido do que pensávamos. Talvez tenhamos subestimado sua capacidade de recuperação”.
“Mea culpa”
Porém, quando perguntado se o Fundo estava fazendo um “mea culpa” em relação à postura que teve com o país, ele foi claro: “Não, mea culpa não. Não somos bodes expiatórios do que ocorreu na Argentina”.
“Os problemas existem no próprio país. O papel do Fundo é dar apoio para que se tente encontrar os caminhos para um crescimento sólido”.
Segundo dados oficiais, a Argentina está saindo da pior crise da sua história e acumula, nos primeiros cinco meses do ano, crescimento de 17,6% frente ao mesmo período do ano passado.
Köhler sugeriu, no entanto, que as reformas sejam concretizadas para que o país “fortaleça este crescimento”.
Governo "realista"
Quatro horas antes, durante reunião na Casa Rosada, o presidente argentino Néstor Kirchner afirmou a Köhler, segundo assessores, que seu governo não está disposto a assinar nada que não possa cumprir.
“O presidente disse que não podemos mais adiar as necessidades dos próprios argentinos”, contou o chefe de gabinete, Alberto Fernández, braço direito de Kirchner.
O novo acordo entre a Argentina e o FMI foi definido por Horst Köhler como sendo de “médio prazo”.
“Não renovaremos o acordo transitório que termina em agosto, e não se trata de acordo de curto prazo”, explicou.
“Durante os três anos, será possível realizar as reformas estruturais que o país necessita para manter o crescimento registrado agora.”
“Impressionado”
Köhler declarou estar “impressionado” com a disposição de Néstor Kirchner de encontrar uma saída “sólida” para a Argentina.
Mas foi cauteloso quando foi perguntado sobre as orientações que daria ao país – que nos anos noventa foi apontado como exemplo pela então diretoria do organismo multilateral de crédito e por representantes do mercado financeiro.
“Uma das lições que aprendi é que o Fundo leva a sério a paternidade das idéias e a possibilidade de que elas possam virar realidade. Não estamos impondo nada a Argentina, mas dialogando”, ressaltou.
Para Köhler, com as reformas realizadas, ou pelo menos encaminhadas, a Argentina passará a transmitir maior confiança aos investidores externos.
“Com um clima jurídico e institucional sólido, o país atrairá investimentos e poderá dar melhores condições sociais a seus habitantes”, acredita.
Diplomacia
Köhler foi tão diplomático que também esquivou-se de aconselhar o país, publicamente, sobre como renegociar o pagamento da dívida que está em moratória desde dezembro de 2001.
“Esse é um assunto da Argentina. O que o Fundo defende é um contato entre o país e os que compraram papéis da sua dívida”, disse.
De acordo com o ministro Roberto Lavagna, são 150 tipos de bônus em diferentes moedas e em mãos de milhares de investidores (especialmente aposentados italianos) em vários países.
No total, esta dívida soma mais de US$ 100 bilhões, mas somente em setembro, como informou o próprio Lavagna, deverá estar claro como será feito este pagamento.