O repórter Paulo Cabral percorre os rios das Velhas e São Francisco seguindo os passos do explorador Richard Burton quase 150 anos depois. Ele conta diariamente o que encontra no mesmo caminho.
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Dia 2 - Santa Luzia (MG) a Pirapora (MG)
Capitão Richard Burton, ao chegar às cachoeiras de Pirapora em setembro de 1867 - "Dois homens foram contratados para nos guiar em uma frágil canoa que eles descreveram como muito 'violenta e banzeira', instável e difícil. As corredeiras de Pirapora diferem de tudo que já haviamos visto. É um artigo superior em qualidade e quantidade. Na estação atual, as águas são quebradas por rochedos, e durante a época das cheias há perigosos redemoinhos."
Eu não tive de atravessar as violentas Corredeiras de Pirapora em uma frágil canoa como fez Richard Burton. Mas a descrição "violenta e banzeira" que o inglês aplica a sua embarcacao é perfeita para a ponte que atravessei com um carro sobre as corredeiras.
Na verdade, trata-se de uma ponte ferroviária – com trilhos e enormes vãos entre os dormentes de madeira – que hoje se tornou o único meio para os carros atravessarem de uma margem a outra.
É assustador. As rodas têm de se equilibrar em tábuas colocadas ao longo do trilhos e, a todo momento, tinha a sensação de que meu carro escorregaria e se encaixaria entre os dormentes. Ou pior, cairia na água lá embaixo. O barulho do madeirame gasto se batendo só piora o medo.
Mas, como Burton, senti a emoção de, pela primeira vez nesta expedição, estar sobre as águas do Velho Chico.
Neste ponto, o São Francisco é suficientemente limpo para a prática de esportes aquáticos e para que os peixes daqui não estejam contaminados.
Rafting
Ter uma experiência como a de Burton e atravessar as corredeiras em um barco – não de madeira, mas de borracha – pode ser arranjado por cerca de R$ 10 com uma agência de turismo local.
O esporte pode ser praticado justamente porque uma das propostas de Burton não foi realizada. O inglês acreditava que as pedras tinham de ser removidas para permitir a passagem de barcos que poderiam chegar até Xique-Xique, na Bahia.
Hoje – com a importancia que ganharam a ecologia e o desenvolvimento sustentável – parece bem mais razoável deixar o rio do jeito que está, não apenas por sua beleza visual e importância para o meio ambiente, mas também pelo enorme potencial turístico.
Além disso, também está sendo desenvolvida a cultura da uva, que já ganhou espaço e dinheiro mais abaixo no rio, na cidade pernambucana da Petrolina, onde devo chegar no fim desta semana.
Bons sinais para encerrar este segundo dia de viagem e compensar toda a sujeira que vi no domingo no rio das Velhas e os enormes rolos de fumaca que saem das chaminés de siderurgicas no caminho entre Belo Horizonte e Pirapora. Daqui pra frente, São Francisco, lá vou eu.