Indonésia vai abolir 'teste de virgindade' para mulheres do Exército

Jovem mulher usando uniforme militar da Indonésia faz continência

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Exigência era considerada abusiva por mulheres, médicos e defensores dos direitos humanos
    • Author, Cristina J. Orgaz
    • Role, Da BBC News Mundo
  • Published
  • Tempo de leitura: 3 min

Durante décadas, a Indonésia exigiu que as mulheres que queriam entrar para as Forças Armadas fizessem um 'teste de virgindade' que consistia em um exame feito pelo médico, com a inserção de dois dedos na vagina, para verificar se o hímen estava intacto.

Mulheres que eram "reprovadas" no exame perdiam a vaga e podiam dar adeus a uma possível carreira militar.

Em alguns casos, a exigência se estendia até mesmo às noivas de policiais militares, que precisavam passar pelo mesmo processo antes de se casar.

Neste mês o Exército anunciou que vai mudar as regras e a partir de agora as candidatas serão avaliadas apenas quanto a sua capacidade e aptidão para o treinamento físico.

Não está claro se a mudança vai valer só para o Exército ou também para as outras Forças Armadas do país.

Jovem mulher entrega papel para homem vestido com uniforme militar

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, A Human Rights Watch considera a exigência do exame um tipo de violência de gênero

O que era o 'teste de virgindade'?

O teste fazia parte de uma análise médica mais ampla a que todos os candidatos são submetidos, para verificar o estado de saúde do recruta.

Porém o exame ginecológico era apenas para mulheres - os homens não precisavam passar por uma análise de suas partes íntimas.

A prática é algo que há anos organizações de direitos humanos denunciam como abusiva e discriminatória.

"Um 'teste de virgindade' é uma forma de violência de gênero e é uma prática amplamente desacreditada", afirma Andreas Hasorno, pesquisador da organização Human Rights Watch, dedicada à defesa dos direitos humanos, na Indonésia.

"O teste ginecológico inclui a prática invasiva de inserir dois dedos na vagina para provavelmente avaliar se a mulher já fez sexo antes", diz ele.

Muitas mulheres que deram depoimento à Human Rights Watch afirmaram que o procedimento ao qual foram submetidas era doloroso.

Mulheres do exército da Indonésia fazem fileira de uniforme

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Não está claro se a mudança vale somente para o Exército ou se vale para todos os militares

Fim dos exames invasivos

Em novembro de 2014 a Organização Mundial de Saúde determinou que testes com o objetivo de verificar "virgindade" não têm validade científica.

Médicos e especialistas em saúde reprodutiva afirmam que a preservação do hímen não tem nenhuma relação com o que popularmente se considera "virgindade". Aliás, "virgindade" sequer é um termo médico ou científico.

O comandante do Exército da Indonésia, Andika Perkasa anunciou neste mês o fim da exigência deste tipo de exame para as mulheres que desejam entrar nas Forças Armadas.

"Já não será mais necessário", disse ele. "O objetivo do processo de seleção é verificar a saúde", afirmou Perkasa.

A partir de agora as candidatas serão avaliadas apenas quanto a sua capacidade e aptidão para o treinamento físico.

"O comando do exército está fazendo a coisa certa. Agora é responsabilidade dos comandantes territoriais e de batalhão seguir as ordens e reconhecer a natureza não científica e abusiva dessa prática", diz Hasorno à BBC News Mundo.

Não está claro se o anúncio afeta apenas o Exército ou também outros ramos das Forças Armadas do país asiático. As dúvidas devem ser esclarecidas nas próximas semanas.

"Os comandantes da Marinha e da Força Aérea agora precisam ser pressionados para seguir o exemplo do Exército e acabar com essa prática", afirma o pesquisador.

O partido Partai Demokrat, uma das principais legendas da oposição, afirmou que a abolição do exame levará a "melhorias no sistema de recrutamento", segundo o site de notícias Detik. O partido disse ainda que os exames aos quais os candidatos são submetidos devem ser relevantes para seus papéis e deveres.

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