Marinheiro em navio abandonado é autorizado a deixar embarcação após 4 anos

    • Author, Paul Adams
    • Role, BBC News
  • Published
  • Tempo de leitura: 4 min

"Alívio. Alegria. Como me sinto? Como se finalmente tivesse saído da prisão. Finalmente vou me reencontrar com minha família. Vou vê-los novamente".

Foi essa a mensagem que Mohammed Aisha enviou à BBC em 22 de abril da pista do aeroporto do Cairo, no Egito, antes de decolar de volta ao seu país-natal, a Síria.

Ele tinha sido libertado nesse mesmo dia. Terminava ali uma provação de quase quatro anos, iniciada em 5 de maio de 2017, que afetou seriamente sua saúde mental.

Mohammed Aisha viveu durante esse tempo praticamente sozinho a bordo do cargueiro MV Aman, preso no Egito. Ele não podia deixar a embarcação.

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Tudo começou em julho de 2017, quando o MV Aman foi retido no porto egípcio de Adabiya. O motivo? Os documentos de seu equipamento de segurança e seus certificados de classificação haviam expirado.

Inicialmente, não seria algo difícil de resolver, mas os operadores libaneses do navio não pagaram pelo combustível e seus proprietários, do Bahrein, estavam passando por dificuldades financeiras.

Com o capitão egípcio do navio em terra, um tribunal local declarou Aisha, o oficial chefe do navio, o guardião legal do MV Aman.

Aisha, que nasceu no porto sírio mediterrâneo de Tartus, diz que não recebeu explicações sobre a determinação judicial e só entendeu as implicações meses depois, quando os outros tripulantes começaram a deixar o navio.

Por quatro anos, Aisha viu a vida e os navios passarem, entrando e saindo do vizinho Canal de Suez.

Durante o recente bloqueio causado pelo gigante navio porta-contêineres Ever Given, ele contou dezenas de embarcações esperando o engarrafamento diminuir.

Ele até viu seu irmão, também marinheiro, passar mais de uma vez. Os irmãos falavam ao telefone, mas estavam muito distantes até para acenar.

Em agosto de 2018, Aisha foi informado que sua mãe, uma professora responsável por seu excelente inglês, havia morrido. Foi o pior momento para ele.

"Considerei seriamente acabar com minha vida", disse à BBC.

Em agosto de 2019, com exceção da passagem ocasional de um guarda, ele estava sozinho, preso em um navio sem combustível e, consequentemente, sem energia.

Mohammed Aisha estava legalmente obrigado a permanecer a bordo e não tinha qualquer remuneração, se sentia desmoralizado e cada vez pior.

Segundo ele, à noite, o navio parecia um túmulo. "Você não consegue ver nada. Não consegue ouvir nada".

"É como se você estivesse em um caixão", disse ele.

Em março de 2020, uma tempestade tirou o Aman de seu ancoradouro. O navio flutuou cinco milhas (8 km), eventualmente encalhando a algumas centenas de metros da costa.

Foi assustador na época, mas Aisha pensou que era um ato de Deus. Ele concluiu que foi uma ação divina. Agora, ele era capaz, conseguia nadar até a praia, comprar comida e recarregar seu telefone.

Aisha não é o único

Por mais surpreendente que seja a história, sua experiência não é única. Na verdade, o abandono de navios está aumentando.

De acordo com a Organização Internacional do Trabalho, há mais de 250 casos ativos em todo o mundo em que as tripulações, por diferentes razões, são simplesmente deixadas à própria sorte. A entidade afirma que 85 novos casos foram registrados em 2020, o dobro do ano anterior.

Enquanto isso, no porto iraniano de Assaluyeh, 19 membros da tripulação, em sua maioria indianos, do graneleiro Ula estão em greve de fome depois que seu navio foi abandonado por seus proprietários em julho de 2019.

Um membro da tripulação disse recentemente ao jornal Lloyd's List, especializado em notícias marítimas, que a situação a bordo era "muito grave", com depressão generalizada e as famílias dos marítimos ficando sem dinheiro.

"A primeira vez que me deparei com um desses casos, fiquei em choque total", diz Andy Bowerman, diretor da Mission to Seafarers para o Oriente Médio e Sul da Ásia.

Falando de Dubai, ele viu isso acontecer várias vezes, geralmente pela mesma combinação de motivos.

"No momento, estamos trabalhando com um caso aqui, em que a empresa tem uma enorme hipoteca sobre o navio, mas suas dívidas vão muito além disso. Então, às vezes é mais fácil mandar a tripulação lançar âncora e quase literalmente abandonar o barco."

Os proprietários da embarcação MV Aman, Tylos Shipping and Marine Services, dizem à BBC que tentaram ajudar Aisha, mas que estavam de mãos atadas.

"Não posso forçar um juiz a remover a tutela legal", diz um representante. "E não consigo encontrar uma única pessoa neste planeta - e tentei - para substituí-lo."

Aisha, disseram eles, nunca deveria ter assinado a ordem judicial em primeiro lugar.

Mohamed Arrachedi, da Federação Internacional dos Trabalhadores em Transporte (ITF, na sigla em inglês), que assumiu o caso de Aisha em dezembro, argumenta que este deve ser um momento para todos na indústria naval refletirem.

"O caso de Aisha tem que servir para abrir um debate sério para prevenir esses abusos aos marítimos em navios", diz.

O debate, acrescenta, deve envolver armadores, autoridades portuárias e marítimas e os países que concedem licenças e fiscalizam as embarcações.

Aisha relata que se sentiu preso em uma situação que não era de sua responsabilidade, encurralado pela lei egípcia e ignorado pelos armadores. Ele falou do sentimento de decepção e isolamento enquanto meses se passavam sem comunicação.

Isso seria o suficiente para que ele nunca voltasse ao mar, certo?

Mas ele está determinado. Aisha diz que é bom no que faz e não vê a hora de voltar ao trabalho.

Depois de encontrar sua família, claro.

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