Por que o México está na rota das teorias conspiratórias sobre a morte de Kennedy

    • Author, Gonzalo Soltero
    • Role, The Conversation*
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  • Tempo de leitura: 6 min

A maioria das teorias da conspiração em torno do assassinato do ex-presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy foram refutadas. Kennedy não foi morto por um dispositivo de gás ativado por alienígenas ou pelo pai do ator Woody Harrelson.

Mas especulações sobre o assassinato de Kennedy, no dia 22 de novembro de 1963, em Dallas, no Texas, seguem alimentadas por documentos classificados como confidenciais, balísticas suspeitas e a alegação do assassino Lee Harvey Oswald — que mais tarde foi morto ao vivo na televisão enquanto estava sob custódia policial — de que ele era "apenas um bode expiatório".

Vários especialistas no assassinato de JFK, como o ex-repórter investigativo do New York Times Phillip Shenon, veem o México como o melhor lugar para encontrar respostas sobre uma possível conspiração.

Pouco mais de um mês antes do assassinato de Kennedy, Oswald pegou um ônibus do Texas à Cidade do México. Ele chegou na manhã de sexta-feira, 27 de setembro de 1963, e voltou bem rápido, na quarta-feira, 2 de outubro, de acordo com a inteligência dos Estados Unidos e do México.

Oswald era um tipo de James Bond rebelde que foi ao sul da fronteira para se associar com comunistas, revolucionários cubanos e espiões, ou apenas um assassino maluco?

Pesquisei essa questão enquanto revisava meu livro sobre teorias da conspiração no México e acho que encontrei algo que todos os outros deixaram passar: um buraco na história do mesmo homem que iniciou uma popular teoria da conspiração sobre a viagem de Oswald ao México.

O México na Guerra Fria

O México foi um ponto focal da Guerra Fria em meados do século 20, um refúgio para exilados soviéticos, esquerdistas americanos que fugiam da perseguição anticomunista ao macarthismo e apoiadores do regime de Castro em Cuba.

Todos os países comunistas e democráticos tinham uma embaixada na Cidade do México, único lugar do hemisfério ocidental onde esses inimigos coexistiam mais ou menos abertamente.

Segundo testemunhas das missões diplomáticas cubana e soviética, Oswald visitou repetidamente suas embaixadas na sexta-feira e no sábado, dias 27 e 28 de setembro de 1963. Buscava desesperadamente vistos para esses países, cuja visita havia sido restrita pelo governo americano a seus cidadãos.

Quando lhe disseram que os documentos demorariam meses para serem processados, o rapaz teve uma acalorada discussão com o cônsul cubano, Emilio Azcué. Oswald acabou provocando o cancelamento de uma partida de vôlei da KGB que aconteceria na manhã de sábado após exibir uma arma no consulado soviético, antes de cair em lágrimas e sair.

Esses eventos são bem documentados pela CIA, que na década de 1960 intensificou suas operações no México para monitorar atividades comunistas, contratando inclusive 200 agentes mexicanos para auxiliar o trabalho.

O Serviço Secreto Mexicano, que viu parte de seus arquivos da década de 1960 terem recentemente parte do sigilo removido pelo governo mexicano, também rastreou os passos de Oswald — seu paradeiro durante três dias e meio da viagem, no entanto, ainda é desconhecido.

Nasce uma teoria da conspiração

A principal teoria conspiratória que dá conta do período não documentado que o americano passou na Cidade do México liga Oswald a personagens perigosos do lado esquerdo da Guerra Fria.

Ela teve origem em março de 1967, quando o cônsul americano na cidade mexicana de Tampico, Benjamin Ruyle, comprava bebidas para jornalistas locais.

Óscar Contreras Lartigue, um repórter de 28 anos do El Sol de Tampico, disse a Ruyle que conheceu Oswald em 1963 quando era estudante de Direito na Universidade Nacional Autônoma do México.

O jornalista disse que fez parte de um grupo universitário pró-Castro para o qual Oswald havia pedido ajuda para conseguir um visto cubano. Segundo o relato, o americano passou dois dias com os alunos da Unam, depois voltou a encontrá-los alguns dias depois na embaixada cubana.

Contreras não daria muito mais detalhes a Ruyle. Ele mesmo havia viajado a Cuba, conhecido figuras do regime de Castro e derrubado a estátua de um ex-presidente mexicano no campus da Cidade do México. Temia, portanto, ser perseguido por suas atividades políticas.

O repórter contou, entretanto, que aquela não era a primeira vez que ele compartilhava sua história — a Ruyle, disse que havia comentado com seu editor na época do assassinato de JFK, que conhecera Oswald.

A questão de Contreras

O relato de Contreras sugeria a existência conexões suspeitas entre Oswald e a Cuba comunista feitas pouco antes do assassinato de JFK.

A história dele foi, de acordo com um memorando enviado posteriormente da sede da CIA, "a primeira pista investigativa sólida que temos sobre as atividades de Oswald no México". Os funcionários do governo dos EUA precisavam descobrir se o jornalista era uma fonte confiável.

Três meses depois do happy hour de Ruyle, um funcionário da CIA na Cidade do México foi a Tampico para interrogá-lo. Durante seis horas, o jornalista se recusou a entrar em detalhes, mas disse que, embora Oswald nunca tenha mencionado um possível assassinato, afirmava repetidamente que "deveria chegar a Cuba".

Em 1978, Dan Hardway, um investigador do comitê da Câmara dos Deputados que se debruçou sobre o assassinato de Kennedy — a United States House of Representatives Select Committee on Assassinations (HSCA) — foi ao México. Após várias tentativas frustradas de conversar com Contreras, ele advertiu, em um relatório, que o relato do jornalista não deveria ser descartado.

O repórter do New York Times Shenon, que entrevistou Contreras para um livro de 2013 sobre o assassinato de JFK, também considerou sua versão confiável. Shenon escreveu que o repórter — a quem chama de "jornalista proeminente" — "foi muito mais longe" em sua entrevista do que com a CIA, alegando "contatos muito mais extensos entre Oswald e agentes cubanos no México".

Hardway, que agora é advogado em West Virginia, ainda acredita no repórter mexicano. Depois de ler o livro de Shenon, ele reiterou em 2015 que Lee Harvey Oswald poderia ter feito parte de uma rede de inteligência cubana mais ampla.

O buraco na história

Óscar Contreras morreu em 2016, então não pude entrevistá-lo.

Em minha pesquisa, contudo, um pequeno detalhe de sua biografia chamou minha atenção. Uma contradição aparentemente esquecida que poderia minar toda a história.

De acordo com o relato do jornalista, ele abandonou o campus da Unam e se mudou para Tampico por volta de 1964. Ele também teria, entretanto, contado a seu editor sobre o encontro com Oswald logo após o assassinato de Kennedy em 1963.

Jornais estudantis não são comuns no México e Contreras estava matriculado em Direito. Como ele poderia ter um editor em 1963?

O jornal de sua cidade natal, El Sol de Tampico, pode ter a resposta. Pesquisando em seus arquivos, descobri que o jornal publicou uma coluna social de domingo no início dos anos 1960 chamada "Crisol" (Caldeirão, em tradução livre).

Óscar Contreras começou a assinar a coluna no dia 6 de junho de 1963 e fez isso em todas as semanas em setembro e outubro daquele ano.

Enquanto Lee Harvey Oswald estava na Cidade do México, Contreras estava a 500 km de distância, em Tampico. Nos exemplares desbotados daquele ano, pode-se ler a prosa com a qual ele relatou suntuosas recepções de casamento, festas de 15 anos e viagens de iate pela alta sociedade de Tampico. Tudo isso enquanto presumidamente era um estudante revolucionário na capital do país.

Três dias obscuros

Acho que os arquivos do El Sol de Tampico contrariam o relato de Contreras.

Um correspondente político pode morar longe de onde seu jornal é publicado. Mas, para um colunista social, isso seria negligência da função.

Essa revelação mergulha na obscuridade da viagem de Oswald ao México no outono de 1963.

Existem outras teorias da conspiração, incluindo uma que Oswald tinha uma amante mexicana que o levou a uma festa de comunistas e espiões.

Mas é mais provável que o México não tenha mais pistas ocultas sobre o assassinato de JFK.

As teorias da conspiração oferecem a promessa de profundidade e conclusão, de resolver um dos maiores enigmas do século 20. Mas, pelo que sabemos sobre o que Oswald fez e não fez na Cidade do México, ele era uma pessoa solitária, instável e desorganizada, que não conseguia nem lidar com seus pedidos de visto.

O assassinato de JFK é um caso cada vez mais frio. E, no México, só existem pistas esgotadas.

*Gonzalo Soltero é professor de análise de narrativa na Escola de Estudos Superiores da Universidade Nacional Autônoma do México, a Unam.

Este artigo foi publicado originalmente no site The Conversation e é reproduzido sob uma licença Creative Commons. Clique aqui para ler o artigo original em inglês.

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