Matteo Salvini, o 'amigo' de Bolsonaro que pode estar próximo de comandar a Itália

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Matteo Salvini, ministro do Interior, vice-primeiro-ministro e líder do partido italiano a Liga, se manifestou a favor de eleições antecipadas no país. Sua justificativa: lidar com as diferenças entre siglas aliadas se tornou inviável.

O estopim para a crise de governo foi a discordância sobre o projeto de um trem de alta-velocidade que ligaria a cidade italiana de Turim à francesa Lyon, e que hoje tem a oposição do Movimento 5 Estrelas. O Movimento - até agora - é aliado da Liga na coalizão de governo.

Mas a movimentação de Salvini vai muito além das questões sobre o impacto ambiental de uma nova linha de transportes. Pesquisas recentes mostraram que a Liga está forte o suficiente para formar um governo sem precisar do apoio do Movimento 5 Estrelas - bastaria o apoio de um ou dois partidos da centro-direita, como o Fratelli d'Italia ou o Forza Italia.

A Liga, originada no Norte do país e marcada por sua agenda de extrema-direita e nacionalista, apresentou uma moção de desconfiança (mecanismo previsto no parlamentarismo) no Senado para dar fim à coalizão com o 5 Estrelas.

O Legislativo está em recesso, mas Salvini pediu que os parlamentares "se mexam" para avaliar a moção em dez dias úteis.

Já Luigi Di Maio, líder do 5 Estrelas e também vice-primeiro-ministro, afirmou que seu partido não teme uma nova eleição.

Afinidade política com Bolsonaro

A Liga e o 5 Estrelas têm dividido uma coalizão desconfortável, mas ambos chegaram ali juntos com um discurso anti-establishment.

Na última eleição, o 5 Estrelas teve duas vezes mais votos que a Liga, mas pesquisas mostram que as proporções foram invertidas.

Já nas eleições europeias, realizadas em maio, a Liga ficou com 34% dos votos na Itália, e o 5 Estrelas cerca de 17%.

Analistas atribuem o franco crescimento de Salvini e da Liga a sua agenda contra a imigração ilegal. O ministro do Interior tem também como marcas a defesa do direito de ter arma em casa para a legítima defesa e a defesa da família tradicional e dos valores cristãos.

É uma posição que vai ao encontro da agenda política do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro (PSL). Ambos, inclusive, já expuseram publicamente suas afinidades - o que foi explicitado, por exemplo, no caso da extradição do italiano Cesare Battisti, condenado a prisão perpétua em seu país por quatro homicídios.

Battisti fugiu após sua condenação da Itália e viveu em diversos países, chegando ao Brasil em 2004. Desde então, ele foi preso em algumas ocasiões e sua situação jurídica teve diversas reviravoltas ligadas ao cenário político - durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ele recebeu status de refugiado político e teve sua extradição vetada.

Quando na presidência, Michel Temer (MDB) decidiu pela extradição e, em janeiro de 2019, já no mandato de Bolsonaro, Battisti foi encontrado na Bolívia e extraditado para seu país natal.

Em dezembro de 2018, recém-eleito, Bolsonaro escreveu a Salvini sobre a possibilidade de extradição de Battisti no Twitter: "Conte conosco!"

Quando efetivada a extradição pelas autoridades bolivianas, Salvini agradeceu a Bolsonaro em discursos e entrevistas: "Obrigado a todos que possibilitaram essa mudança (...) Ao novo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que retirou a proteção... Porque ele (Cesare) é um assassino", disse.

Episódios recentes também mostraram a aproximação de Salvini de Eduardo Bolsonaro, filho do presidente brasileiro e deputado federal (PSL-SP). Os dois fizeram uma transmissão ao vivo juntos nas redes sociais em abril.

Salvini também publicou no Twitter em julho uma saudação à indicação de Eduardo à Embaixada do Brasil nos EUA: "Feliz que o amigo Eduardo Bolsonaro tenha sido indicado como próximo embaixador do Brasil nos EUA, o nosso abraço da Itália".

O italiano e os Bolsonaros compartilham ainda um comportamento parecido na forma de se comunicar, criticando de forma ferrenha a imprensa e investindo em uma postura bastante ativa nas redes sociais. Nelas, entra de tudo: transmissões ao vivo improvisadas, anúncios de novas políticas e imagens do cotidiano - estas, reforçando a imagem de "homens do povo".

Parte da vida pessoal e profissional de Salvini passa justamente pela comunicação. Depois de iniciar estudos em história e ciência política (sem concluí-los), o italiano, com origem na classe média, chegou a trabalhar em uma rádio e em um jornal vinculados à Liga.

Por que o projeto do trem se tornou a gota d'água

Mote do cisma atual entre a Liga e o 5 Estrelas, o projeto do trem de alta velocidade já havia tido licitação suspensa pelo primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, em março.

O multibilionário projeto TAV (Treno Alta Velocità) envolve abrir um túnel de 58km nos Alpes.

A iniciativa é duramente rejeitada pelo 5 Estrelas por seu impacto ambiental e orçamentário.

Já a Liga argumenta que o projeto poderá criar empregos e estimular a economia, e que investir em ferrovias, e não em rodovias, é ambientalmente mais vantajoso.

Apoiadores da linha dizem ainda que a viagem entre as duas cidades ficaria em apenas duas horas; o trajeto entre Paris e Milão também passaria a durar quatro horas, em vez de sete - como é hoje.

O projeto foi lançado há cerca de 20 anos e uma parte já foi escavada. A conclusão está prevista para 2025.

O custo inicial projetado era de €8.6 bilhões (R$ 38 bilhões), mas o ministro dos Transportes Danilo Toninelli - membro do 5 Estrelas - diz que a conta final ficará em €20 bilhões (R$ 88 bilhões).

A União Europeia se comprometeu a financiar até 40% dos custos.

O que acontece agora?

"Vamos direto ao Parlamento para dizer que não há mais maioria... e depressa vamos nos voltar aos eleitores", defendeu Salvini na quinta-feira.

Di Maio rebateu, dizendo em nota: "Estamos prontos, não nos importamos em ocupar cargos no governo e nunca o fizemos".

O pedido de Salvini por uma eleição não significa necessariamente que ela será convocada no futuro próximo. A Itália não teve uma eleição de outono em todo o período do pós-guerra, segundo a agência de notícias Reuters.

A autoridade para dissolver o Parlamento é do presidente Sergio Mattarella, mas ele pode resistir a fazê-lo pois os parlamentares precisam deliberar sobre o orçamento de 2020.

Nesse cenário, Mattarella poderia teoricamente nomear um governo de tecnocratas e adiar uma nova eleição até o ano que vem.

A Itália já teve um governo tecnocrático antes, mas Salvini, que lidera uma onda de popularidade, deve se opor a essa medida.

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