18 de junho, 2004 - 13h34 GMT (10h34 Brasília)
Betta Plebani
de Xangai
Negociar diretamente com o governo central da China, em Pequim, pode não ser suficiente para o Brasil resolver a crise da soja "contaminada", que já levou a suspensão de importações e proibição de 23 exportadores brasileiros de vender para o país.
Na teoria, os relatórios dos encarregados de controle de qualidade nas regiões são enviados a Pequim. No entanto, geralmente, os documentos ficam nas províncias, onde comerciantes chineses locais e lobistas têm mais poder de ação.
"É mais fácil pedir a amigos no Departamento de Quarentena (nas províncias) que encontrem grãos vermelhos em um carregamento", contou à BBC Brasil uma fonte que preferiu não se identificar.
A pressão externa, como a da delegação brasileira que está visitando o país, não muda a situação. Se o assunto não é importante a nível local, Pequim tem pouco a fazer.
'Quebra de confiança'
Mas o governo central chinês está relutante em reconhecer essa impotência diante do problema com a soja brasileira.
Jim Liu, do departamento de comércio da Embaixada do Brasil em Pequim, disse estar preocupado com a situação.
"Acho que é uma questão séria, que envolve 23 empresas, e que só piorou desde abril. Parece que os exportadores envolvidos não estão familiarizados com os padrões de distribuição internacional", diz.
Para Liu, a qualidade do carregamento de soja do primeiro navio que foi proibido de descarregar na China era inaceitável, "o nível de mistura era muito alto".
Segundo ele, o episódio ofendeu as autoridades chinesas e é por isso que a China está com controles de qualidade e de quarentena rígidos contra o produto brasileiro.
"Foi uma quebra de confiança entre Brasil e China", diz Liu.
Novas medidas
Na última sexta-feira, o Ministério da Agricultura brasileiro tomou uma série de medidas mais rígidas para tentar controlar o nível de produtos tóxicos presentes na soja.
De acordo com a instrução divulgada pelo Ministério da Agricultura, a soja será considerada boa para exportação se tiver até um grão contaminado por quilo do produto.
Segundo Liu, os pontos chaves do documento já foram traduzidos pela embaixada e enviados ao governo chinês.
Apesar das dificuldades, Liu acredita que a disputa deve ser resolvida logo, porque a China tem muita necessidade de soja.
Para o assessor da embaixada brasileira, a China sabe que não é possível garantir a inexistência total de mistura de produtos nos grãos importados.
"Não existe tolerância zero. A China compra gãos para processamento e ninguém pode efetivamente garantir que só existem grãos puros", diz Liu.
Richard Herzfelder, consultor de uma companhia de serviços alimentícios da China, discorda.
"Da forma como está agora, a China é um dos países que nunca fixou limites de tolerância, por tanto, mesmo um único grão vermelho em 50 mil toneladas pode ser demais e eles podem protestar", avalia Herzfelder.
Para o consultor, o mercado internacional pode ganhar com esse "conflito comercial" entre China e Brasil.
"Se novas medidas e novas regras forem introduzidas, isso só trará benefícios. É extremamente importante melhorar a qualidade dos produtos, saber a origem dos grãos e criar regras de tolerância."
A China é o maior importador de soja do mundo e deve importar entre 19 e 19,5 milhões de toneladas do produto neste ano - menos do que os 20,7 milhões do ano passado.
O Brasil é o segundo maior exportador do produto, atrás apenas dos Estados Unidos.
No ano passado, os produtos agrícolas contribuíram com 38,9% das exportações brasileiras para a China.
Soja e seus derivados representaram 80% das vendas de produtos agrícolas do Brasil para o mercado chinês.