O crescimento econômico de 8,7% no ano passado foi decisivo para a redução do desemprego na Argentina. O problema é que os cerca de 1 milhão de postos criados neste período oferecem salários mais baixos em comparação ao período anterior à crise, impedindo a melhoria da qualidade de vida dos agora ocupados.
A avaliação é do economista Ernesto Kritz, especialista em questões do trabalho e políticas sociais e diretor executivo da Sel Consultores (Sociedade de Estudos Trabalhistas, na sigla em português). “A desocupação está em queda e com ela a indigência, a pobreza extrema. Mas a questão é a qualidade dos novos empregos”, diz.
Segundo dados do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), do Ministério da Economia, a taxa desocupação caiu de 19,7%, em 2003, para os 14,5%, registrados agora.
Para Santiago Gallichio, economista-chefe da consultoria Exante, o crescimento nem sempre é o “motor” da geração de postos de trabalho. “Nos anos 1990, a Argentina acumulou crescimento de mais de 60% e o desemprego manteve-se alto”, observa.
Entraves
Kritz e Gallichio, entrevistados pela BBC Brasil, destacaram que mais de 50% dos novos postos de trabalho são sem carteira assinada e, portanto, sem os benefícios nela embutidos, como a previdência social.
Na opinião de Gallichio, apesar da queda no desemprego, os índices atuais ainda sao “elevadíssimos” para a história argentina.
Ele entende que o governo deveria flexibilizar as leis que hoje, acredita, reprimem a oferta e a demanda de trabalho.
Entre elas, destaca, a carga tributária e as indenizações em casos de demissão.
“São tantos os entraves que o empresário pensa duas vezes antes de contratar alguém”, diz.
Imprecisão
Segundo o Indec, a pobreza que era de 54% em 2003 atualmente está em 47,8%, mas ainda afeta 17,7 milhões de pessoas.
A indigência atingia 10,2 milhões de pessoas e hoje afeta 7,6 milhões, 2,6 milhões menos.
Os dois especialistas acham que é difícil detectar, com precisão, as cifras reais do emprego na Argentina, já que o governo contabiliza, como emprego, afirmam eles, o benefício e 150 pesos dado a cada chefe de família desocupado.
Estima-se que quase 2 milhões de pessoas sejam atendidas com o programa, nascido no auge da crise em 2002.
Construção civil
Diante disso, para os dois especialistas, na prática o governo têm feito pouco para criar empregos.
“A construção civil foi o setor mais beneficiado com a reativação da economia. Outro motivo para que os empregos criados não oferecem salários acima dos 1 mil pesos”, disse Kritz.
Esse valor é suficiente para cobrir apenas as necessidades básicas de alimentos e pagamentos de serviços, entre outros itens da lista oficial que exige 718 pesos como salário base para uma família de quatro pessoas estar livre da pobreza.
“Minha dúvida é se o governo pretende um país com mais empregos, porém com salários mais baixos, ou desenvolver políticas que abram oportunidades para empregos mais qualificados e bem pagos para todos”, acrescentou o especialista.