Pouco mais de dois anos depois de a Argentina ter suspendido os pagamentos de sua dívida, um novo calote ronda o país, segundo a Economist Intelligence Unit (EIU, consultoria do mesmo grupo da revista The Economist).
O governo argentino ameaçou não pagar uma dívida de US$ 3 bilhões ao Fundo Monetário Internacional (FMI) que vence no dia 9 de março, caso a instituição não assegure a liberação de uma parcela de empréstimo no mesmo valor.
Os detentores de US$ 95 bilhões em bônus – que não estão sendo pagos desde o calote – estariam pedindo ao Fundo que nenhum desembolso seja feito até que seja fechado um acordo entre eles e o governo da Argentina, segundo a EIU.
A consultoria diz que é pouco provável que o FMI "empurre a Argentina para um novo calote", mas não descarta a possibilidade. Na última quarta-feira, durante revisão da situação do país, pelo menos três países ricos que integram o board do Fundo – a diretoria, formada por representantes dos países sócios da instituição – se manifestaram contra a manutenção de empréstimos à Argentina.
Disputa
O governo argentino propôs um reescalonamento da dívida em bônus com desconto de 90% do valor líquido atual dos papéis. Os credores – milhares de investidores em 12 países – consideram a proposta "ridícula", segundo a EIU.
Os argentinos argumentam que essa proposta é baseada em premissas realistas.
Os detentores de bônus querem que o Fundo deixe de fazer pagamentos até que recebam uma nova proposta do governo argentino.
Para eles, a Argentina está desconsiderando a própria carta de intenções que enviou ao Fundo, e estaria quebrando a regra que prevê que todos os credores sejam tratados igualmente.
Necessidade
Apesar da diferença de posições ser grande, a EIU acredita que um acordo entre detentores de bônus e o governo Argentino deve ser fechado no decorrer deste ano, mas as negociações serão tortuosas.
O governo argentino estaria, aparentemente, em uma posição de força, mas a consultoria argumenta que o país depende de recursos externos para se financiar. Por isso, teria necessidade de reabrir as portas dos mercados de capitais, o que só aconteceria com um acordo.
O diretor da corretora Exotix, Richard Segal, argumenta que a aparente dureza do presidente argentino, Néstor Kirchner, pode estar lhe garantindo apoio popular doméstico temporário, mas esta situação não deve perdurar.
Segundo Segal, se a falta de acesso aos mercados internacionais e a própria relutância de investidores argentinos em aplicar recursos no país perdurarem, a economia real começará a ser afetada.
"Sem recursos, os contribuintes argentinos terão que pagar por investimentos nas empresas de serviços públicos, se não quiserem que haja problemas nesse setor", diz Segal.
Para a EIU, apesar das dificuldades atuais, o FMI tenderá a evitar "empurrar a Argentina ao calote", porque isso provocaria danos à economia mundial.