A agência de risco Fitch Ratings não deve alterar a "nota" dada ao Brasil, apesar dos bons sinais emitidos pela economia brasileira, segundo o analista de América Latina da empresa, Richard Fox, baseado em Londres.
A empresa divulgou nesta semana um relatório sobre a América Latina elogiando o desempenho do Brasil em vários setores, especificamente indicando que a qualidade dos papéis da dívida do país "pode continuar a melhorar".
O andamento das reformas e a manutenção de uma política fiscal austera também foram elogiados pela Fitch.
A meta inicial de superávit primário (despesas do governo menos gastos com a conta de juros da dívida) acordada entre o Brasil e o FMI (Fundo Monetário Internacional) era inicialmente de 3,75% do PIB, tendo sido voluntariamente elevada para apertados 4,25% do PIB.
Sinais positivos
Além disso, desde que o governo petista de Luiz Inácio Lula da Silva assumiu, a inflação medida pelo IPCA caiu de 2,25%, em janeiro, para 0,34% em agosto, e o dólar caiu de R$ 3,50 para R$ 2,90.
"Há uma série de sinais positivos a respeito da economia brasileira, e a perspectiva é, em geral, positiva, com o conjunto de políticas adequadas, taxas de juros em queda e dedicação ao controle do déficit", considera Fox.
"Mas ainda há muito por fazer. Em relação às reformas, houve esforço por parte do governo, mas o que se conseguiu ainda é muito pouco, é preciso ir adiante", completou o analista, fazendo referência à reforma da Previdência.
"Dessa forma, não há planos imediatos em relação à elevação do rating brasileiro", concluiu Fox.
C-Bond
No relatório da Fitch, os analistas apontam que o crescimento do PIB brasileiro e das exportações, que foi de 1,6% e 2,8% respectivamente, em média, nos últimos cinco anos, foi fraco.
"(Esses números) precisam ser elevados substancialmente para permitir a sustentabilidade da dívida pública e externa no médio prazo", diz o texto.
A euforia das últimas semanas em torno dos C-Bond, principal título da dívida brasileira, culminou nesta terça-feira, quando o valor do papel chegou a ser negociado por US$ 0,945, recorde histórico.
O desempenho dos C-Bond alimentou a expectativa de que o Brasil pudesse receber um "upgrade" por parte da Fitch entre analistas brasileiros.
A agência atribuiu ao Brasil a nota "B" em junho. Essa classificação elevou o rating do Brasil de neutro para positivo.
Predileção por risco
Fox dix que é difícil dizer por quanto tempo vai durar a alta demanda pelos papéis brasileiros, já que a "predileção por risco" apresentada pelo mercado internacional atualmente pode ou não se sustentar por mais tempo.
A elevação do rating russo recentemente, pela Moody's, teria deixado mais recursos disponíveis para outros mercados emergentes.
Mas, no médio e no longo prazo, o fluxo de capitais para o Brasil e outros emergentes depende das condições gerais do mercado internacional, como o crescimento econômico dos principais países desenvolvidos e das taxas de juros americanas, que se encontram em seu patamar mais baixo historicamente, de 1% ao ano, lembra Fox.
Como os papéis dos Estados Unidos são mais seguros como investimento, a elevação de sua remuneração pode fazer com que os recursos de investidores migrem dos mercados emergentes para o mercado americano.
Exportações
Ele não descarta que o fluxo de capital estrangeiro entrando no país por causa da elevada atratividade dos C-Bonds possa exercer pressão sobre o câmbio, o que, em tese, poderia comprometer a competitividade das exportações, já que isso implicaria a valorização do real e o subseqüente encarecimento de produtos brasileiros no mercado internacional.
Mas Richard Fox não acredita que isso possa jogar por terra o crescimento das exportações alcançado neste ano.
"Os mecanismos da economia não são tão simplistas. Há outros fatores em jogo, como a possibilidade de que o Brasil passe absorver esse tipo de impacto causado pela entrada de investimentos de fora por meio do aumento de produtividade que deve ser obtido através de reformas e outras medidas que procuram reduzir o Custo Brasil", diz ele.
Para John Bowler, analista de América Latina da Economist Intelligence Unit os preços das commodities produzidas pelo Brasil estão em alta no mercado internacional, como é o caso do preço do ferro, da soja e de metais preciosos, o que serve para alavancar as exportações brasileiras.
Boa parte dessa demanda por matéria-prima vinda do Brasil parte da China, cujo o desempenho econômico tem sido bem melhor do que o do Brasil, em termos de crescimento.
Além disso, Bowler ressalta que a entrada de recursos externos em busca de papéis brasileiros pode ser esterilizada por mecanismos de política monetária usados pelo Banco Central.
Ele cita a manutenção de investimentos externos na conta das reservas internacionais, o que evitaria o aumento da demanda por moeda local e, conseqüentemente, a valorização do real.