A economia brasileira terá um dos piores desempenhos da América Latina neste ano, indicam os mais recentes dados da Cepal (Comissão Econômica para América Latina e o Caribe).
O crescimento de 1,5% previsto para o Brasil é o mesmo projetado para países pequenos como Paraguai, Nicarágua e El Salvador, e para o México – que deve crescer pela primeira vez após dois anos de recessão.
Em termos de renda per capita, a previsão é ainda pior: 0,2%. Ou seja, não deverá ser neste ano que o país avançará muito na redução da desigualdade de renda.
São perspectivas modestas como a do Brasil e outras ainda piores – como a da Venezuela, cuja economia deve contrair 13% – que fizeram a Cepal baixar a projeção de crescimento da região de 2,1% para 1,5%.
Mas a organização ressalta que o pessimismo se baseia principalmente no cenário internacional e elogia esforços da maioria dos países latino-americanos – com destaque para Brasil e Chile – para gerar condições para o crescimento.
Segundo a Divisão de Desenvolvimento Econômico da Cepal, a economia mundial está se recuperando em um ritmo mais lento do que o previsto e, portanto, não desempenhou "o papel de motor do crescimento da região".
"Na prática, a guerra foi curta, mas o resto do cenário não se cumpriu. A economia dos Estados Unidos não ressurgiu como se previa, as economias européias surpreenderam com uma perda de dinamismo e o Japão não sai da estagnação em que se encontra desde 1998", afirma o documento, que antecipa parte das conclusões que estarão em um relatório a ser divulgado em setembro.
Brasil
O Brasil, frisa o documento, foi um dos países mais afetados pela queda nos fluxos de capital estrangeiro registrada no ano passado. Durante a campanha presidencial, houve uma deterioração "excepcional" dos indicadores de risco soberano.
No entanto, essa vulnerabilidade teria diminuído quando o governo "mostrou o compromisso de manter a disciplina das contas fiscais".
O relatório também destaca a melhora da balança comercial do Brasil e da América do Sul de uma forma geral, que deverá exportar mais do que importar pelo segundo ano consecutivo.
Segundo as projeções da Cepal, a região deve registrar novo superávit comercial, desta vez de US$ 56 bilhões (contra US$ 46 bilhões em 2002).
"O Brasil, em particular, registrará um crescimento notável de suas exportações (15%) que permitirá ao país elevar o excedente comercial a US$ 22 bilhões em 2003, em contraste com US$ 13 bilhões em 2002."
Câmbio
Para os economistas da Cepal, com a situação da economia internacional, esse resultado só foi possível por causa de políticas de câmbio mais competitivas e investimentos em setores exportadores.
A maior margem de manobra na política cambial, aliás, é destacada como um dos fatores de política macroeconômica que a Cepal elogia na maioria dos países latino-americanos.
Os outros seriam maior liberdade na condução da política monetária e o aprofundamento das reformas fiscais com efeito de longo prazo. Segundo a Cepal, à exceção de El Salvador, todos os países latino-americanos aprovaram reformas estruturais nos últimos dois anos.
A organização destaca os casos do Brasil e do Chile, que serviriam como exemplos para o resto da região.
A Cepal elogia os cinco anos de esforço fiscal do governo brasileiro e a meta de 4,25% do superávit que, nos termos do documento, o governo se "impôs" para recuperar a credibilidade e a reputação nos mercados financeiros.
Os economistas também destacam o que vêem como a "sincronia" entre o Banco Central, mas avaliam que o Brasil pode "desenvolver uma política monetária mais expansiva, no sentido do equilíbrio macroeconômico".
"O caminho lógico de curo prazo para o Brasil passa por reduzir os spreads de sua dívida soberana externa e suas taxas de juros internas, que seguem sendo extraordinariamente altas."
De acordo com as projeções da Cepal, a Argentina é o país latino-americano que mais deve crescer em 2003. Ainda assim, o PIB (Produto Interno Bruto) ficará abaixo do de 1997, uma vez que o país vem registrando perdas consecutivas nos últimos anos – apenas no ano passado, a economia argentina se contraiu 10,9%.
Neste ano, a pior situação é a da Venezuela, que deverá perder 13% do seu PIB. O Uruguai também aparece como um dos últimos no ranking de crescimento da Cepal, com uma retração projetada de 2,5%.