‘Como descobri um primo em uma ilha remota e segredos que minha família levou para o túmulo’

Lennard Davis e Lance Tauoa

Crédito, Lennard Davis/Arquivo Pessoal

Legenda da foto, Lennard e Lance se conheceram pessoalmente em 2018
    • Author, Sarah McDermott
    • Role, Do Serviço Mundial da BBC
  • Published
  • Tempo de leitura: 8 min

Quando o americano Lennard Davis recebeu um e-mail de um desconhecido que dizia ser seu parente próximo, ele pensou que provavelmente era um golpe. Lennard é professor universitário em Nova York e judeu, e o homem dizia ser descendente de líderes polinésios. Foram necessários 4 anos e a revelação dos segredos de duas famílias para resolver o mistério.

Em 1979, o tio de Lennard, Abie, disse que tinha um segredo, mas não poderia revelá-lo enquanto o pai de Lennard, Morris, estivesse vivo.

Morris na época estava com câncer, internado em um hospital. Quando ele morreu, dois anos depois, Lennard lembrou seu tio Abie do segredo e pediu para que ele enfim o revelasse.

No começo o tio ficou relutante – disse para Lennard esquecer do assunto, porque ele não queria contar. Mas Lennard o pressionou, e Abie acabou revelando o segredo.

"Ele disse: 'Eu sou seu pai'", conta Lennard.

Lennard fotografado quando bebê com seu irmão mais velho, seu pai e sua mãe

Crédito, Lennard Davis/Arquivo Pessoal

Legenda da foto, Lennard fotografado quando bebê com seu irmão mais velho, seu pai e sua mãe

Foi uma revelação perturbadora. Lennard tinha sido educado para não gostar muito de seu tio Abie e para acreditar que ele não era confiável. E com seus pais já mortos – a mãe de Lennard havia morrido há quase uma década – não havia restado ninguém para explicar o que aconteceu.

"Meus pais nunca tinham me contado. Era um segredo de família e provavelmente, em alguma instância, algo vergonhoso", diz Lennard.

Anos se passaram até ele resolver investigar esse segredo que seus pais haviam levado para o túmulo. No ano 2000, aos 55 anos, ele decidiu fazer testes para verificar sua paternidade.

Jovem e de barba, com roupas esportivas, Lennard abraça o pai, Morris, um senhor de cabelo branco, óculos e casaco preto, em frente a alguns carros na rua

Crédito, Lennard Davis/Arquivo Pessoal

Legenda da foto, Lennard com seu pai de criação, Morris, depois de correr na maratona de Nova York no fim dos anos 1970

Lennard procurou por envelopes que Morris pudesse ter lambido e que pudessem conter traços de seu DNA, e pediu para seu primo fazer o mesmo para encontrar material de Abie, que então também já havia morrido.

O professor nunca havia gostado especialmente de seu pai, um homem que ele descreve como difícil e intolerante, com um temperamento explosivo. No entanto quando ele abriu a carta com os resultados do teste de DNA e descobriu que Morris, o homem que o criou, não era seu pai biológico, ele se sentiu genuinamente triste.

Outro teste revelou que seu pai biológico na verdade muito provavelmente era seu tio Abie.

Contato intercontinental

Anos depois, em 2014, Lennard foi contatado do nada por um homem de Pago Pago, de Samoa Americana, na Polinésia.

Ele disse que seu nome era Lancelot Tauoa, e que depois de fazer um teste de DNA descobriu uma ligação genética muito próxima entre ele e o americano.

"Minha reação inicial foi ficar muito, muito desconfiado", diz Lennard.

Mas quando ele olhou para a base de dados na qual os resultados de seu teste foram arquivados, ele percebeu que, bem ao lado de seu meio-irmão (o homem que ele antes considerava seu primo) estava o nome de Lancelot Tauoa. Os dois homens aparentemente eram primos de segundo grau.

"Isso foi extremamente perturbador", diz Lennard. "Minha família é judaica, do começo ao fim, e de repente aparece um cara da Samoa Americana que é um parente próximo? Foi algo muito estranho, de cair o queixo."

Lennard continuou cético, mas se esforçou para imaginar como essas duas famílias poderiam ter uma ligação.

"Eu não tinha a menor ideia de quem poderia ser ou qualquer detalhe, mas, honestamente, eu imaginei que era algo relacionado à prostituição", diz Lennard.

Lennard e Lance continuaram em contato por e-mail e, com o tempo, as suspeitas de Lennard sobre Lance começaram a diminuir.

"Havia algo muito tocante nas cartas de Lance", diz Lennard. "Através de seus e-mail eu podia sentir que realmente queria saber o que aconteceu. E eu me identificava com ele, mesmo sem nunca tê-lo conhecido pessoalmente."

Tendo já descoberto que seu tio era na verdade seu pai biológico, Lennard imaginou que um segredo de família parecido deveria estar por trás de sua ligação com Lance.

Ele presumiu que seria relativamente fácil resolver o mistério. Mas para a verdade ser descoberta foram necessários 4 anos e uma série de idas e vindas.

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O estrangeiro misterioso

A mais de 11 mil km de distância, no sul do Oceano Pacífico, Lancelot Tauoa também tentava resolver o mistério.

Ele não tinha ideia de que havia segredos em sua família até o dia do funeral de sua avó, em 2000.

A avó de Lance era a filha do chefe de um vilarejo em Pago Pago, uma pequena comunidade cristã onde todo mundo se conhece. No dia do enterro, muitas pessoas vieram prestar seus pêsames, incluindo a tia-avó de Lance, Eppe, irmã de sua avó.

Eppe estava fora de si de tanto pesar.

Por acaso Lance ouviu um dos presentes dizer que o motivo pelo qual Eppe estava tão triste era que a avó dele tinha criado o filho de Eppe, Sekele. Mas Sekele era o pai de Lance, que havia morrido alguns anos antes – então, se isso fosse verdade, Eppe seria a avó biológica de Lance.

Sekele tinha uma aparência um pouco diferente das outras pessoas na ilha e era conhecido por muitos pelo seu apelido, Elvis Samoano.

Em foto tirada por volta de 1958, o pai de Lance, Sekele, toca violão na praia, sem camisa

Crédito, Lance Tauoa/Arquivo Pessoal

Legenda da foto, O pai de Lance, Sekele, em foto tirada por volta de 1958

"Meu pai era muito alto, com cerca de 1,87 m, e tinha a pele muito clara", diz Lance. "Ele não gostava de ir à igreja e adorava filmes de faroeste. Ele era muito divertido."

Algumas semanas depois, Lance decidiu confrontar Eppe sobre o que havia ouvido no enterro.

"Ela negou", diz Lance. "Ela disse: 'não ouça esse tipo de fofoca', e alguns meses depois ela morreu."

Mas enquanto planejava o enterro de Eppe, as suspeitas de Lance foram confirmadas quando o chefe de sua família disse que Lance ou sua irmã teriam que fazer a eulogia de Eppe no velório. Ele explicou que o pai deles havia sido o filho biológico de Eppe.

"Foi muito surpreendente", diz Lance. "Eu queria respostas, então procurei a irmã do meu pai, minha tia, e ela me disse que achava que todos nós sabíamos."

Ela contou que Eppe, filha do chefe do vilarejo, tinha se afastado do marido e ficado grávida depois de um romance clandestino com um estrangeiro.

A avó de Lance então tinha adotado e criado o bebê.

Lance ficou com raiva, sentindo-se traído e confuso. Seu pai também sabia? Porque ninguém nunca contou para ele?

Os pais de Lance em 1974; um casa de polinésios com colares de flores em meio ao fundo praiano

Crédito, Lance Tauoa/Arquivo Pessoal

Legenda da foto, Os pais de Lance em 1974

Depois do enterro de Eppe, Lance começou a procurar os idosos da família em busca de respostas, mas ouviu que, como seus avós e seu pai não tinham falado com ele sobre o assunto, ele deveria deixar quieto.

Mas Lance realmente queria descobrir quem era seu avô.

"A única coisa que eu sabia das fofocas era que o homem era um marinheiro americano alocado na Samoa Americana. Era isso", diz Lance. "Não havia nome, nada."

Lance começou sua pesquisa lendo livros sobre a presença dos EUA no sul do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial, mas parecia sem sentido – era procurar uma agulha no palheiro.

Então ele decidiu fazer um teste de DNA e teve um grande avanço em sua pesquisa. Lennard Davis, o professor universitário de Nova York, era a peça que estava faltando no quebra-cabeça.

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Busca conjunta

Quando Lennard conseguiu superar sua desconfiança, os dois homens começaram uma busca conjunta pelo misterioso soldado americano que os conectava.

Lennard primeiro procurou por pistas no lado materno da família, mas não encontrou nada útil. Então acabou direcionando sua busca na família da avó paterna.

"Mas era um lado da família sobre o qual eu não sabia nada", diz ele. "Não tinha absolutamente nenhuma informação sobre eles."

O sobrenome de solteira da avó de Lennard era Movshovich. A família tinha vindo para os EUA da Lituânia, através do Reuno Unido, mas foi preciso descobrir que eles haviam mudando o nome para Morse para conseguir encontrar os registros da família.

Com a ajuda de um genealogista profissional, os dois traçaram as origens da família até o ano 1700. Eles então localizaram um primo distante de Lennard que disse ter um antigo álbum de família que talvez pudesse ser útil. No álbum, eles encontraram a foto de um homem que parecia muito com Lance.

Charles 'Chuck' Morse usando uniforme militar sorri e olha para a câmera

Crédito, Família Morse/Arquivo Pessoal

Legenda da foto, Charles Morse se alistou à marinha e serviu em Pago Pago em 1942

"Ele estava de uniforme, estava sorrindo e olhando para a câmera", diz Lance. "Ele parecia tanto com meu pai – como um gêmeo do meu pai. Era extremamente bonito."

Lance colocou a foto do homem em uniforme militar como fundo de tela de seu celular, e não conseguia parar de olhar para ela.

"Aqueles olhos me chamavam a atenção – eu acho que tenho aqueles olhos", diz Lance.

Em outras fotografias ele notou outras semelhanças.

Eu reconheci o contorno do cabelo – eu sempre me perguntei por que eu tinha essas entradas estranhas", diz ele.

Mas quem era o homem da foto? Ninguém sabia nada sobre ele, nem ao menos seu nome.

Outro ano se passou até que finalmente Lennard e Lance conseguiram descobrir que ele era o filho mais novo do tio-avô de Lennard, nascido em 1918. Seu nome era Charles Morse e ele havia se alistado na Marinha em 1940 e servido em Pago Pago em 1942. O pai de Lance havia nascido no ano seguinte.

Charles Morse, em foto de 1941, sentado no chão e com sua arma apontada

Crédito, Família Morse/Arquivo Pessoal

Legenda da foto, Charles Morse em foto de 1941

Ele com certeza deveria ser o avô de Lance.

"Mas nós não tínhamos uma prova concreta", diz Lennard.

Em sua pesquisa, Lennard e Lance encontraram uma homenagem a Charles Morse, que havia morrido em 2014 aos 96 anos, escrita por um homem chamado Peter Sellars. Sellars tinha sido membro do mesmo clube de veteranos do qual Charles participou. Os dois homens haviam sido grandes amigos.

Lennard entrou em contato com Peter, que compartilhou suas memórias de Charles.

"Ele parece ter sido uma pessoa muito encantadora", diz Lennard.

Lance fez uma pergunta bem direta a Peter: ele tinha histórias interessantes sobre Charles no sul do Pacífico?

"Sim!", respondeu Peter. "Eu tenho uma história interessante!"

Durante a estadia de Charles em Pago Pago, disse Peter, ele se apaixonou pela filha do chefe do vilarejo, Eppe. Charles a pediu em casamento, mas a proposta foi rejeitada pelo chefe e Charles voltou para os EUA sozinho.

Não está claro se ele sabia que Eppe era casada, ou se ele esperava que ela tivesse permissão para se separar.

Depois da partida de Charles, Eppe havia dado à luz a seu filho, Sekele, que foi então adotado e criado pela irmã de Eppe.

De volta aos EUA, Charles nunca se casou ou teve uma família, e presume-se que nunca soube que tinha um filho na Samoa Americana.

Lance, um homem com traços polinésios, e Lennard, um judeu de Nova York, lado a lado atrás da lápide de mármore de Charles Morse

Crédito, Lennard Davis/Arquivo Pessoal

Legenda da foto, Lance e Lennard visitaram o túmulo de Charles em 2018

Em novembro de 2018, Lennar e Lance se conheceram pessoalmente em São Francisco. Eles visitaram junto o túmulo de Charles Morse no Cemitério Nacional de Vale Sacramento.

"Eu estava muito empolgado", diz Lance. "Não via a hora de finalmente ver a lápide e tocá-la."

Lance levou com ele de Samoa um pouco de areia da praia, um pouco de terra e algumas pedras do rio onde o acampamento dos soldados americanos tinha sido montado. E levou tudo para o cemitério.

Lennard observou de longe enquanto Lance caminhava até o túmulo.

"Eu botei tudo para fora. Todas as emoções. Foi muito pesado", diz Lance.

Quando Lennard se aproximou, Lance colocou a cabeça em seu ombro e chorou de soluçar.

"Foi algo que me fez sentir o poder dessa ligação e o incrível círculo que havia sido completado", diz Lennard.

"Charles tinha sido um soldado em Samoa no exato lugar onde estavam as pedras (trazidas por Lance), que estavam voltando. O solo estava voltando, Lance estava voltando, o DNA estava voltando para o exato lugar onde Charles estava agora enterrado e onde seu DNA estava agora debaixo da terra", continua.

"Foi cósmico."

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