Os maiores salões neoclássicos de Londres foram finalmente abertos ao público, neste fim de semana, depois de três anos de um detalhado trabalho de restauração, calculado em 8 milhões de libras esterlinas, o equivalente a 40 milhões de reais.
Antiga biblioteca que reunia os livros do rei George III e parte do Museu Britânico, o espaço construído no início do século 19, agora abriga a nova Galeria do Iluminismo.
Ela é o ponto alto das comemorações, este ano, dos 250 anos do museu mais famoso da capital britânica.
“A idéia é mostrar como os estudiosos e colecionadores da época tentaram dar sentido ao mundo como um todo através dos objetos coletados ou comprados”, diz o vice-diretor do Museu Britânico Andrew Burnett, “fazendo a ligação entre as diferentes partes do mundo, diferentes religiões e culturas.”
Ninho de beija-flor
A nova galeria - com seu esplendor de mármore de Carrara, alabastro, granito e detalhes folheados a ouro de 23,5 quilates - reúne cerca de 5 mil objetos dos quais só 20 foram expostos antes.
A grande maioria dos artefatos vem da coleção do próprio museu, guardados todos esses anos nos porões do prédio, mas uma boa parte é emprestada de outras instituições, como a biblioteca da Câmara dos Comuns (a câmara baixa do parlamento britânico), o Museu da Ciência, o Victoria e Albert, e o Museu da História Natural.
Deste último, há a única peça vinda do Brasil: um ninho de beija-flor trazido do Rio de Janeiro pelo capitão Cook, em 1768 – é o único ninho sobrevivente da viagem de exploração do navio Endeavour.
A expedição foi a primeira viagem a reunir um grupo de homens especificamente com a missão de descobrir e relatar as maravilhas da natureza em outras partes do mundo.
Momento revolucionário
Foi um período em que o conhecimento na Europa começou a ser organizado e que a arqueologia, a história natural e a etnografia transformaram-se em disciplinas científicas; uma era de descobertas e aprendizado, em oposição ao que se convencionou chamar de obscurantismo da Idade Média.
Foi um momento na história da humanidade que muita gente considera revolucionário.
Não por acaso, a exposição na nova galeria do Museu Britânico é intitulada “O Descobrimento do Mundo no século 18”.
A coleção de curiosidades e excentricidades que, naquele momento, formavam o museu passaram a ter sentido.
“Quando entra aqui, você volta no tempo e pode ver as coisas que as pessoas da época colecionavam e que usavam para criar uma espécie de museu universal, por meio do qual podiam aprender coisas sobre o mundo”, observa Kim Sloan, curadora da Galeria do Iluminismo.
Ciência x religião
Muitas vezes, este processo de aprendizado punha em xeque crenças e preconceitos estabelecidos, e teorias como a da evolução da espécie eram recebidas como heresia.
A descoberta arqueológica de machadinhas da Idade da Pedra, por exemplo, desafiou os ensinamentos bíblicos de que a Terra tinha cerca de 4 mil anos.
“Vários arqueólogos ou antiquários envolvidos nessas descobertas também eram clérigos, e o que eles estavam encontrando e constatando com seus próprios olhos não fazia sentido, de acordo com a teologia na qual sempre haviam acreditado”, conta a curadora Kim Sloan.
“Com isso, nasceram muitas teorias confusas naquele período, para tentar explicar essas coisas.”
Elegância discreta
A mostra revela como nossa percepção da natureza e da humanidade mudou.
Para facilitar a compreensão do visitante do século 21, os objetos foram organizados em sete seções que ilustram o Mundo Natural, o Nascimento da Arqueologia, Arte e Civilização, os métodos de Classificação do Mundo, a decifração de Manuscritos da Antiguidade, a busca da origem comum das Religiões e Rituais, e o impacto do Comércio e Descobrimento de novas culturas.
Mas numa época em que os museus apelam cada vez mais para efeitos especiais, interatividade e outros truques chamativos, a Galeria do Iluminismo pode parecer meio sem graça para o passante apressado.
Os curadores mantiveram o espírito da antiga biblioteca real e a maioria dos artefatos está exposta nas estantes protegidas por vidros onde ficavam os livros dos reis Jorge II e Jorge III, que, em 1998 foram transferidos para a nova Biblioteca Nacional.
Nada de gigantescas efígies egípcias, múmias assustadoras ou outras grandiosidades. Esta é uma galeria que esbanja elegância mas principalmente discreção.
Sua inauguração fecha com chave de ouro o aniversário de 250 anos do Museu Britânico, que, fundado em 1753 é, em si, uma das conquistas do Iluminismo na Grã-Bretanha.