"Londres é uma cidade masculina."
A polêmica afirmação é do escritor Peter Ackroyd, autor de London: The Biography e uma das maiores autoridades na história da cidade.
Muita gente se refere à capital inglesa como uma cidade austera. Mas, masculina?
"Esta é uma cidade, antiga capital de um império, que tem como base de sustentação o poder, o comércio, a dominação. É uma cidade impiedosa", diz Ackroyd.
Multiculturalismo
"Talvez seja injusto com os homens, mas estas são características atribuídas ao sexo masculino", explicou o escritor durante o lançamento de seu novo livro, uma versão ilustrada da biografia da capital, Illustrated London.
Toda essa testosterona é o que faz bater acelerado o coração da City, o centro financeiro da capital, que movimenta o equivalente a 150 bilhões de reais por ano.
Além disso, Ackroyd aponta outra característica fundamental da cidade: o multiculturalismo.
"A história dos imigrantes em Londres é a história de Londres", diz o escritor.
"Sempre foi assim. Londres foi construída a partir da imigração – os saxões, os normandos, os latinos. Ela usa as pessoas, a mão de obra barata, mas também adota os imigrantes."
Londrino gosta de um show
O londrino trabalha pesado mas se diverte na mesma proporção. E isto, observa Ackroyd, também é histórico.
"O entretenimento existe desde que a cidade existe. Londres é a terra do espetáculo" – desde as execuções públicas nos parques aos teatros elizabetanos.
Este é um dos motivos por que, para ele, eventos como o recente jejum do ilusionista americano David Blaine numa caixa transparente à margem do rio Tâmisa não chega a constituir uma novidade.
"Este tipo de teatricalidade em Londres vem de longa data", afirma o escritor.
Aquisições recentes, como a roda-gigante do milênio, provocam a mesma análise distanciada.
Poder de regeneração
O London Eye, a elegante versão high-tech de uma atração de parque de diversões, é saudada pelas autoridades e pelo público não só como grande entretenimento mas também como grande responsável pela regeneração de uma área pobre da cidade.
Isto tampouco é novidade, diz Peter Ackroyd.
"Não há nada particularmente especial em relação ao London Eye. Até ela tem predecessores."
O que se vê com a roda-gigante, o Globe Theatre (a réplica do teatro de Shakespeare) e a Tate Modern, na opinião do biógrafo de Londres, é nada mais que o renascimento da margem sul do Tâmisa como um lugar de espetáculo, teatro, entretenimento.
Em séculos passados, a margem sul foi o centro da boemia e diversão do londrino.
"Londres é assim. Alguns lugares ficam em estado de suspensão por uns 200 anos e, de repente, se revitalizam."
Nada surpreende
Quando deixa o papel de observador e se mistura à massa em busca dos prazeres da cidade que provavelmente conhece como ninguém, Peter Ackroyd evita os marcos históricos, como o palácio de Buckingham e Trafalgar Square.
Se tivesse que apresentar Londres a um amigo turista, revelar os aspectos que a tornam seu centro urbano preferido, o biógrafo o levaria a áreas que considera sagradas, como o bairro de Clerkenwell ("impregnada de história teatral e de política radical"), sobre o qual escreveu um livro.
Ou, ainda, o bairro de Bloomsbury, de forte tradição literária.
De fala mansa e um certo ar blasé, Peter Ackroyd fala como se nada nesta cidade o abalasse.
Talvez porque a intensa pesquisa para a biografia de Londres também o tenha transformado, de certa forma, em personagem desta riquíssima história de 2 mil anos.
Como será no ano 3 mil
"Não há nada em Londres que provoque minha raiva ou meu desconforto. A cidade parece estar sempre espelhando ou reproduzindo padrões de períodos passados. Não há nada, em particular, que cause descontentamento."
Nem mesmo os aspectos negativos, como o número de mendigos e drogados nas ruas, o trânsito infernal, a desigualdade social?
A resposta está no epílogo de Londres: a Biografia.
“Quando se pergunta como Londres pode ser uma cidade triunfante quando tem tantos pobres e tantos sem-teto, pode-se dizer apenas que eles, também, sempre fizeram parte de sua história. Talvez sejam parte de seu triunfo."
"Se esta é uma afirmação dura, é apenas tão dura quanto a própria Londres. Londres ultrapassa limite e convenção. Ela contém todo desejo e toda palavra jamais ditos, toda ação e gesto jamais feitos, toda declaração cruel ou nobre jamais expressa. Ela é ilimitada. Londres é infinita.”
E como ele vê Londres no futuro?
"Haverá suficiente consistência na personalidade e na vida de Londres para que ela nos seja familiar. Tenho certeza de que, daqui a mil anos, ela será razoavelmente reconhecível como Londres."