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Arte e desemprego se misturam na Argentina

Músicos de tango, escritores e atores argentinos decidiram se unir para levar arte a protestos de desempregados a fábricas que, depois de fechadas, foram tomadas por trabalhadores na Argentina.

Para estes artistas, a palavra de ordem poderia ser a música Yo soy el desocupado (Eu sou o desempregado), da banda Santa Revolta, uma das mais famosas entre os desempregados que fazem protestos.

Ou ainda o tango "Tiem-Posmodernos" dos músicos Javier González e Patricia Barone.

Os dois músicos foram premiados por críticos argentinos com o tango Pompeya no olvida (Pompeya não esquece) – que fala dos males da recente ditadura argentina, entre 1976 e 1983.

Piquetes

Os artistas, como contam Javier e Aníbal Kohan, da Santa Revolta, costumam levar seus instrumentos e até as caixas de som para os piquetes – protestos realizados por desempregados, no qual eles interrompem o trânsito para pedir trabalho e maior distribuição de auxílio do governo.

"Nós começamos a fazer música de protesto para dançar, mas depois da morte de dois piqueteiros em 2001, num confronto policial, passamos a fazer rock, chamamé (um ritmo do sul do Brasil e da Argentina) e cumbia (um ritmo caribenho) com letras mais sérias", afirma Kohan, de 44 anos, da Associação de Artistas que tocam nos Piquetes.

Javier González e o diretor de teatro, Ivan Moschner, de 39 anos, do grupo Morena Cantero Jrs., foram os fundadores de outro grupo artístico dos protestos, o LuchArte, ligado ao grupo piqueteiro Pólo Obrero.

Ivan é o criador da montagem teatral Manifesto, com base no texto do Manifesto Comunista de Karl Marx.

Ao lado dos atores Ariel Aguirre, de 26 anos, e de Juan Panico, de 32, eles apresentam Manifesto em diferentes palcos populares. "Chegamos a representar esta peça para cinco ou seis pessoas", disse.

"Às vezes, não tinha ninguém para nos assistir. Hoje, talvez pela situação do país, já reunimos 50, 100 e até 150 num espetáculo". No fim da apresentação, eles sempre gritam: "Proletários de todo mundo, uni-vos".

Cooperativa

Há duas semanas, a fábrica de massas Grisinópolis, no bairro de Almagro, a vinte minutos do centro de Buenos Aires, foi o palco de Manifesto.

Ali, 16 trabalhadores formaram uma cooperativa para manter em funcionamento a fábrica, que havia entrado em concordata durante a crise argentina.

Eles salvaram o lugar, estão ocupados e abriram um centro cultural.

"Nós, aqui estamos provando que uma fábrica pode funcionar sem o patrão, mas não sem seus trabalhadores", disse Ivana Santos, de 42 anos, que atua também como porta-voz da indústria.

"Nós decidimos abrir aqui um centro cultural para poder dar acesso cultural ao povo. E hoje até escritores lançam livro aqui", orgulha-se a operária, que trabalha há mais de 20 anos em Grisinópolis.