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23 de junho, 2004 - 17h30 GMT (14h30 Brasília)

Carolina Glycerio

Brasileiros descobrem 'café sem cafeína'

Uma equipe de pesquisadores brasileiros descobriu uma espécie de café naturalmente descafeinado.

A descoberta foi publicada nesta quarta-feira na revista científica Nature e pode abrir caminho para a ampliação de um mercado já estimado em 10% dos consumidores do produto.

“Um café com um selo ‘naturalmente descafeinado’ e com a qualidade total da bebida certamente vai ter um espaço garantido no mercado”, afirmou um dos autores da pesquisa, Paulo Mazzafera, em entrevista à BBC Brasil.

Mazzafera, do Departamento de Fisiologia Vegetal da Unicamp, explica que a planta descafeinada é uma mutação da espécie coffea arabica, a mais consumida no mundo, e foi encontrada em meio a mudas trazidas da Etiópia para o Brasil em 1965.

A planta mutante tem 0,06% de cafeína, ou seja, 20 vezes menos do que as variedades comerciais.

O pesquisador do Unicamp e os seus dois co-autores no estudo, Maria Bernadete Silvarolla e Luiz Carlos Fazuoli, do Instituto de Agronomia de Campinas, levaram 17 anos para encontrar a planta, que é procurada por pesquisadores de vários outros países.

Menos sabor

O processo industrial atualmente utilizado para tirar a cafeína do café, explica Mazzafera, remove propriedades essenciais ao sabor da bebida. Uma planta naturalmente descafeinada preservaria essas propriedades, eliminando apenas a cafeína.

O pesquisador diz que, embora não haja provas de que faça mal à saúde, a cafeína é hoje considerada uma droga, por criar um estado de alerta e tirar o sono das pessoas mais sensíveis à substância – justamente o mercado alvo do café descafeinado.

“Dependendo da quantidade de cafeína que ingerirem, algumas pessoas têm palpitações e aceleração de batimentos cardíacos”, explica Mazzafera.

Segundo o especialista, normalmente o organismo humano leva seis horas para “se livrar” da cafeína, mas em algumas pessoas esse processo leva mais tempo. “Tudo depende da sensibilidade e da capacidade de metabolizar a cafeína.”

Ele explica que provavelmente será preciso cruzar sementes descafeinadas com uma variedade comercial de coffea arabica, uma vez que os pesquisadores estimam que a produtividade da planta descafeinada seja baixa.

“Estimamos que elas tenham 30% da produtividade das variedades comerciais.” Nesse caso, das sementes geradas pelo cruzamento, seriam escolhidas as que tivessem menos cafeína, que, por sua vez, seriam novamente cruzadas entre elas.

Segundo Mazzafera, o chamado processo de melhoramento das sementes descafeinadas poderá levar de seis a 15 anos.

Consumo

No Brasil, o consumo de café descafeinado é relativamente pequeno, cerca de 1%, mas nos Estados Unidos, chega a 20%.

Tentativas anteriores de produzir uma planta com baixo teor de cafeína falharam porque envolveram espécies que não produzem um café saboroso ou porque recorreram à modificação genética, ainda polêmica e sujeita a rígidas regulamentações.

Os pesquisadores alegam que, embora ainda não esteja clara a viabilidade comercial da planta descoberta, o fato de ela pertencer à espécie mais cultivada e consumida no mundo aumenta as chances de a planta gerar café de alta qualidade.

Para o pesquisador, o investimento no café descafeinado de qualidade poderia ajudar o Brasil no competitivo mercado mundial do produto.