'I Will Always Love You': a história da música escrita por Dolly Parton e transformada em 'hino do amor' por Whitney Houston

Dolly Parton na década de 1970.

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    • Author, Alex Taylor*
    • Role, Repórter de Cultura, BBC News
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  • Tempo de leitura: 8 min

Um lampejo de inspiração levou Dolly Parton a se sentar e escrever dois clássicos seguidos na mesma tarde, em 1973.

Primeiro veio Jolene, um enorme sucesso que marcou sua carreira e que é automaticamente associado a Parton; em seguida, veio I Will Always Love You.

Mais de meio século depois, as duas músicas são parte essencial do legado de Parton, que morreu nesta terça-feira, 25 de agosto, aos 80 anos, em Nashville, cidade para onde havia chegado ainda adolescente para tentar construir uma carreira na música.

Seu assessor de imprensa informou que a cantora morreu em paz, dias depois de ela mesma revelar que enfrentava problemas de saúde não especificados, embora continuasse trabalhando e ainda tivesse muitas coisas por fazer.

I Will Always Love You, lançada originalmente em 1974, continua sendo uma de suas obras menos reconhecidas como compositora, apesar de ter embalado histórias de amor e desamor por mais de meio século.

Foi a versão de Whitney Houston, gravada para a trilha sonora de O Guarda-Costas em 1992, que elevou a música à categoria de clássico mundial.

Revisitamos a conturbada história de I Will Always Love You, desde a ruptura profissional que inspirou a música e a tentativa frustrada de Elvis Presley de se apropriar dela até a versão de Whitney Houston, que a transformou em um fenômeno mundial, e a surpreendente maneira como Parton investiu seus royalties.

Um começo impecável

A doçura da versão original de Dolly Parton esconde o caráter independente e solitário de quem a criou.

Depois de se mudar do leste do Tennessee para Nashville ao deixar a escola, em 1964, Parton conquistou um sucesso moderado como cantora e compositora antes de chamar a atenção do cantor Bill Phillips, que interpretou sua música Put It Off Until Tomorrow.

Posteriormente, a estrela da música country Porter Wagoner convidou Parton para ser a "cantora feminina" de seu programa de televisão.

Por fim, ele a contratou para sua gravadora e lhe deu a grande oportunidade que ela tanto desejava.

O primeiro single de Parton por essa gravadora, uma versão de The Last Thing on My Mind, de Tom Paxton, foi um dueto com Wagoner.

Quando a música entrou no Top 10 da música country em 1968, marcou o início de uma formidável parceria musical.

Parton e Porter Wagoner

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Legenda da foto, A gratidão de Parton a Porter Wagoner — ambos fotografados em 1968 — inspirou-a a escrever "I Will Always Love You"

No entanto, em 1973 Parton queria assumir completamente o controle dos palcos e da televisão.

"Eu tinha chegado a Nashville para ser minha própria estrela", disse ela ao apresentador Howard Stern em 2023.

"Eu realmente sentia que precisava seguir em frente. Não queria passar o resto da minha vida sendo apenas 'a cantora'. Eu conhecia meu destino. Sabia que precisava continuar fazendo aquilo para o qual me sentia... chamada."

Tomar a decisão foi uma coisa; comunicá-la a Wagoner era outra completamente diferente.

Ao relembrar a angústia daqueles sentimentos conflitantes, ela comentou: "Como faço para fazê-lo entender o quanto sou grata por tudo, mas que preciso ir embora?"

"Pensei: 'Bom, o que você sabe fazer melhor? Escrever músicas'. Então me sentei e escrevi esta música."

E assim nasceu I Will Always Love You, de Parton: uma ode de sincera gratidão permeada por uma firme determinação.

Na manhã seguinte, ela entrou decidida no escritório de Wagoner e pediu que ele se sentasse.

"Cantei a música sozinha no escritório dele: só eu e meu violão", contou a Stern.

Lágrimas escorriam por suas bochechas enquanto ele ouvia atrás de sua mesa.

"É a melhor música que você já escreveu", disse ele. "Você pode ir embora se me deixar produzir a música."

Dolly Parton

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Legenda da foto, Parton interpretou a música durante sua apresentação icônica em Glastonbury, em 2014

Marc Lee, que escreveu sobre a música para a coluna Life of a Song, do Financial Times, disse à BBC que a canção permanece como "uma mistura extraordinariamente comovente de delicada fragilidade e intensidade arrebatadora".

E acrescentou: "Ela é extraordinária porque anuncia o doloroso fim de um relacionamento, ao mesmo tempo em que declara a existência de um vínculo emocional que durará para sempre".

O 'não' a Elvis

Um ano depois, as duas músicas surgidas daquela prolífica sessão de composição já haviam alcançado o primeiro lugar nas paradas de música country dos Estados Unidos, e Parton começava a conquistar espaço entre o grande público pop.

Então Elvis ligou: ele havia ouvido I Will Always Love You e queria gravar uma versão.

"Você não imagina o quanto estou empolgada com isso", disse ela. "É a melhor coisa que já me aconteceu como compositora."

Elvis cantando

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Legenda da foto, As baladas emotivas de Elvis sugerem que sua voz poderia ter acrescentado algo especial a I Will Always Love You

Mas, na noite anterior à sessão de gravação, seu empresário — conhecido por seu jeito implacável —, o coronel Tom Parker, ligou para Parton para dizer que Presley não gravaria a música a menos que ela cedesse metade dos direitos autorais.

Demonstrando a mesma firmeza e perspicácia empresarial que a levaram a se separar de Wagoner para fazer sucesso em carreira solo, Parton se obrigou a dizer não.

"Eu disse: 'Não posso fazer isso'", contou ela a Stern. "É claro que chorei a noite toda por causa disso."

A mina de ouro do cinema

Embora seja compreensível que Parton tenha ficado intrigada ao pensar no que poderia ter surgido da magia de Presley interpretando aquela música de desamor, seu instinto de se manter firme deu frutos, literalmente.

Em 1975, pouco depois de Parton lançar originalmente I Will Always Love You, Lawrence Kasdan escreveu o roteiro de O Guarda-Costas, uma história romântica na qual um ex-agente do Serviço Secreto se apaixona pela estrela pop que foi contratado para proteger.

Whitney Houston interpretou a estrela do pop Rachel Marron em "O Guarda-Costas".

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Legenda da foto, Whitney Houston interpretou a estrela do pop Rachel Marron em "O Guarda-Costas".

Passaram-se 17 anos até que os astros se alinhassem e Kevin Costner e Whitney Houston — uma verdadeira superestrela pop na vida real — levassem a história para as telas em 1992, incluindo I Will Always Love You na trilha sonora.

A própria Parton havia tentado antes, interpretando a música ao lado de Burt Reynolds no filme de 1982 The Best Little Whorehouse in Texas.

A nova versão gravada para o filme voltou a liderar a parada de música country da Billboard — algo inédito até então —, embora não tenha conseguido entrar no top 40 geral.

Foi Costner, segundo a coluna The Number Ones, da publicação Stereogum, quem sugeriu que Houston cantasse uma música country.

Houve ceticismo, mas foi preparada uma fita com possíveis músicas, entre elas a versão que Linda Ronstadt fez em 1975 da simples balada de Parton.

O produtor David Foster reformulou a música para transformá-la em uma peça intensa e emocionante — uma verdadeira demonstração de força vocal — que permitiu a Houston exibir sua voz com total liberdade.

Whitney Houston declarou à revista Rolling Stone que considerava Parton "uma compositora e cantora extraordinária", e acrescentou que estava "preocupada" com o que ela acharia de sua versão.

Ela também comentou o quanto significou para ela o fato de Parton ter dito que ficou "maravilhada" com sua interpretação.

"A gravação de Parton tem uma pureza e autenticidade sóbrias que são irresistíveis. A versão de Houston é igualmente comovente, mas apresentada em uma escala enormemente diferente", disse Marc Lee à BBC.

Seu início a capela — incluído também por sugestão de Costner para que se encaixasse melhor no filme — vai ganhando intensidade até desembocar no verso e na nota finais, interpretados por Houston com uma potência vocal descomunal.

"Ela transforma o que Dolly descreveu como 'uma música simples sobre tudo e sobre nada' em uma balada monumental que evoca toda a energia de um avião decolando", afirmou Lee.

Parton viveu uma experiência semelhante: contou a Stern que ouviu a versão por acaso enquanto dirigia seu Cadillac de volta para casa; ficou tão impressionada que precisou encostar o carro porque "quase bateu" o veículo.

Houston durante um show em 1993, como parte da turnê mundial de "O Guarda-Costas"

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Legenda da foto, Houston durante um show em 1993, como parte da turnê mundial de "O Guarda-Costas"

"Fiquei como um cachorro ao ouvir um apito. Aquilo me trouxe algo à memória: quando percebi que ela estava prestes a entrar no refrão, não conseguia acreditar que minha pequena música country triste pudesse ser interpretada daquela maneira", disse.

"Foi uma das experiências mais extraordinárias de toda a minha vida."

O resto, como dizem, é história.

A versão de Houston se tornou um enorme sucesso mundial: ficou 10 semanas em primeiro lugar no Reino Unido — onde foi o single mais vendido do ano — e 14 semanas no topo das paradas da Billboard nos Estados Unidos.

Fez tanto sucesso que acabou ganhando o prêmio de Gravação do Ano na cerimônia do Grammy de 1994.

Houston após ganhar o Grammy por I Will Always Love You, ao lado do produtor David Foster.

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Legenda da foto, Houston após ganhar o Grammy por I Will Always Love You, ao lado do produtor David Foster

O que Parton fez com os royalties

Com vendas mundiais superiores a 20 milhões de cópias, estima-se que a música tenha rendido a Parton mais de US$ 10 milhões em direitos autorais apenas pela versão de Houston durante a década de 1990.

Em 2021, Parton contou ao apresentador Andy Cohen que investiu parte desse dinheiro em um bairro afro-americano de Nashville como uma homenagem a Houston, que morreu em 2012, aos 48 anos.

"Ali viviam principalmente famílias negras e pessoas da região. Era todo um complexo comercial; e pensei que era o lugar perfeito para mim, considerando que se tratava de Whitney", declarou Parton.

A relevância cultural da música permanece até os dias de hoje. Em 2023, inclusive, uma apresentação teatral de O Guarda-Costas foi interrompida porque o público estava cantando alto demais.

A ex-integrante do The Pussycat Dolls, Melody Thornton, tentava interpretar seu solo quando as pessoas começaram a acompanhá-la, cantando completamente desafinadas.

Thornton disse que "tentou muito" e que se sentiu "péssima" com o cancelamento antecipado da apresentação.

Dolly Parton em 1974

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Legenda da foto, Dolly Parton em 1974

Quanto a Elvis Presley, Parton disse que, somando todas as versões da música, ganhou dinheiro suficiente para poder comprar várias vezes Graceland, a famosa propriedade do artista.

E, em uma tentativa de solucionar o mistério de sua versão "perdida", Lee comentou: "Imagino que ele a teria tratado com respeito, dando a ela aquela sutileza e contenção vocal que imprimia a suas versões de músicas como Can't Help Falling in Love e Unchained Melody".

As versões criadas por fãs com o uso de inteligência artificial chegam (mais ou menos) à mesma conclusão.

Agora só resta respirar fundo, aumentar o volume no refrão e... bem, você já sabe como continua.

Seria uma falta de respeito não fazer isso.

Por Parton, por Presley e por Houston.

Com informações adicionais de Atahualpa Amerise, da BBC News Mundo.