Com 100% dos votos apurados, Keiko Fujimori vence eleição no Peru e fecha 'círculo de fogo' da direita ao redor do Brasil

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A conservadora Keiko Fujimori venceu a eleição presidencial do Peru, segundo o resultado final da apuração divulgado nesta segunda-feira (29/6) pelo Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE).

O órgão eleitoral concluiu a contagem de 100% dos votos mais de três semanas após o segundo turno. O resultado, contudo, ainda depende de proclamação oficial.

Candidata do partido Fuerza Popular (Força Popular), Fujimori obteve 50,135% dos votos válidos, o equivalente a 9.223.396 votos, contra 49,865% e 9.173.755 votos do candidato de esquerda Roberto Sánchez, da coalizão Juntos pelo Peru.

A diferença entre os dois foi de 49.641 votos, uma das menores margens registradas em uma eleição presidencial peruana nas últimas décadas.

A vitória de Keiko Fujimori reforça o avanço recente da direita na América Latina. Nos últimos anos, Argentina, Equador, Paraguai, El Salvador e, mais recentemente, Colômbia elegeram líderes conservadores e de direita.

Com a mudança no Peru, Lula passa a contar com menos aliados ideológicos na região.

O segundo turno foi realizado em 7 de junho em um cenário de forte polarização política.

O processamento das atas eleitorais contestadas e dos recursos apresentados prolongou por 22 dias uma apuração acirrada, na qual Roberto Sánchez chegou a abrir vantagem, mas acabou sendo ultrapassado por Keiko Fujimori na reta final.

Com a conclusão da contagem, o órgão eleitoral encerra a etapa de contabilização dos votos.

O resultado, contudo, ainda depende de proclamação oficial pelo Júri Nacional de Eleições (JNE), responsável por analisar os últimos recursos e declarar formalmente a presidente eleita para o mandato de 2026 a 2031.

Se o processo transcorrer sem novos contratempos, Fujimori tomará posse em 28 de julho.

Primeira mulher eleita no Peru

"Esperamos a proclamação do JNE com muita humildade, prudência e responsabilidade. Estamos cada vez mais perto de começar um caminho de ordem e esperança para todos os peruanos", escreveu Fujimori no X após o anúncio da conclusão da apuração.

Filha do ex-presidente Alberto Fujimori, Keiko chegará à Presidência aos 51 anos após ter sido derrotada nas três disputas anteriores pelo cargo.

Keiko Fujimori será a primeira mulher eleita presidente do Peru pelo voto popular. A ex-presidente Dina Boluarte assumiu o cargo por sucessão constitucional após a destituição de Pedro Castillo.

Fujimori também será a nona pessoa a ocupar a Presidência do Peru nos últimos dez anos.

A política peruana tem sido marcada por instabilidade e sucessivas crises institucionais, com a maioria dos presidentes deixando o cargo em meio a acusações de corrupção ou processos de destituição conduzidos pelo Congresso.

Como demonstra o resultado apertado da eleição, Fujimori herdará um país profundamente polarizado e terá como principal desafio restaurar a estabilidade política que faltou aos governos anteriores.

Quem é Keiko Fujimori?

Keiko se tornou uma das poucas figuras duradouras na política peruana, que nos últimos anos tem devorado seus líderes no ritmo frenético de sucessivos escândalos de corrupção.

Ela também teve o seu próprio escândalo: foi acusada de lavagem de dinheiro no caso de corrupção ligado à construtora brasileira Odebrecht. Chegou a passar mais de um ano na prisão. Em 2025, o Tribunal Constitucional acabou arquivando o processo. A decisão lhe permitiu voltar a ser candidata a tempo para estas eleições.

Para conquistar os eleitores cansados da corrupção e da insegurança, Fujimori não hesitou em reivindicar o legado de seu pai, que faleceu em 2024 e passou cerca de 16 anos na prisão após ser condenado por crimes contra a humanidade.

Com o slogan eleitoral de "volta à ordem", tentou associar sua imagem àquela que os admiradores têm de Alberto Fujimori: um líder firme que estabilizou um país abalado pela crise econômica e pela violência do Sendero Luminoso na década de 1990.

No entanto, seu pai continua sendo uma figura que gera divisões no Peru, e muitos também lembram as violações dos direitos humanos ocorridas sob seu comando, assim como os severos cortes decorrentes de suas reformas econômicas.

Seu sobrenome é seu grande ativo político, mas também seu principal fardo. De fato, a figura de Keiko sempre esteve ligada à de seu pai.

Nascida em 1975 e a mais velha de quatro irmãos, coube a ela assumir o papel institucional de primeira-dama do Peru quando o casamento de seus pais se desfez.

Foi então que os peruanos conheceram uma jovem Keiko como acompanhante de seu pai em atos públicos e viagens de Estado.

Após estudar Administração de Empresas nos Estados Unidos, regressou ao Peru e dedicou-se plenamente à política.

Em 2006, com seu pai já detido no Chile, foi eleita congressista pela primeira vez.

Cinco anos depois candidatou-se à presidência. Voltou a tentar em 2016 e 2021, perdendo em cada ocasião para políticos que não chegaram ao fim de seus mandatos.

Keiko manteve o controle do fujimorismo, mas isso teve um custo: conflitos familiares e decisões controversas, inclusive envolvendo seu próprio pai e irmão.

Em 2022 separou-se do empresário norte-americano Mark Vito, com quem teve duas filhas e que agora faz parte do mundo da televisão e do entretenimento peruano.

Esta foi a primeira vez que Keiko Fujimori foi candidata à presidência após a morte de seu pai. Durante a campanha, tentou aproveitar ainda mais esse capital político e a sensação de muitos peruanos de que o país vive uma situação excepcional que requer medidas firmes.

Entre suas propostas está a construção de megaprisões de segurança máxima e a retirada do Peru da Corte Interamericana de Direitos Humanos.