Espanha pode bater a Bélgica? O trunfo de cada seleção para chegar à semifinal da Copa

Lamine Yamal com o uniforme da seleção da Espanha, durante uma partida

Crédito, Getty Images

    • Author, Guillem Balague
    • Role, BBC Sport
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  • Tempo de leitura: 7 min

A Espanha do técnico Luis de la Fuente vem aumentando seu prestígio.

Esta pode ser a quarta vez em que a mesma seleção conquista a Copa do Mundo e a Eurocopa, seguindo os passos da Alemanha Ocidental em 1974, da França em 2000 e da própria Espanha, em 2010.

De la Fuente vive sua quarta temporada como técnico da Espanha. Ele conquistou a última Euro dois anos atrás e, agora, orienta seu país rumo às quartas de final contra a Bélgica, nesta sexta-feira (10/7), às 16 horas (de Brasília). A França aguarda para enfrentar o vencedor deste confronto na semifinal.

O técnico perdeu apenas três partidas desde que assumiu o cargo, em janeiro de 2023. Ele acumula 35 jogos seguidos, sem uma única derrota.

Existem técnicos que formam equipes usando a tática do jogo. Outros se baseiam nas pessoas. Mas De la Fuente, de alguma forma, consegue fazer os dois.

O que o diferencia dos demais não é apenas sua filosofia de futebol, mas sua forma de entender as pessoas.

Seu estilo pode ser definido como controlar a posse de bola, com alternativas. Mas, além disso, ele criou uma cultura própria.

O sucesso de De la Fuente com a seleção da Espanha é o fruto de décadas de trabalho da Federação Espanhola e do seu próprio desempenho como técnico neste sistema desde 2023, formando jogadores e inspirando valores.

Ele desempenhou papel fundamental na construção de uma identidade coletiva que, agora, é inconfundível. E esta não é uma conquista simples em uma seleção nacional.

'O futebol é um esporte coletivo, construído por boas pessoas'

Uma convicção simples é o centro da visão de mundo de De la Fuente: o futebol é um esporte coletivo, construído por boas pessoas.

Não são "boas", no sentido moral abstrato, embora os valores cristãos, a ética e o bom senso claramente sirvam de orientação para o técnico.

Ele se refere ao sentido futebolístico: pessoas generosas, solidárias, altruístas, disciplinadas e dispostas a se sacrificar pelo coletivo.

De la Fuente repete constantemente esta ideia, quase surpreso ao observar que as pessoas acham que isso não é comum.

"Todos nós que já estivemos em um vestiário sabemos o que significa ser uma boa pessoa", declarou ele, em entrevista exclusiva, antes do jogo contra a Bélgica.

"Quase todas as equipes têm o oposto, aquele jogador que prejudica a harmonia, que se coloca em primeiro lugar."

De la Fuente tem 65 anos e já passou por muitos vestiários. Ele despontou como técnico quando assumiu o comando da seleção sub-19 da Espanha, que ganhou o campeonato europeu de 2015. Depois, foi técnico da seleção sub-21 e da seleção olímpica de 2020, que foi medalha de prata em Tóquio, após perder para o Brasil na final.

Ele sabe que talento sem generosidade não vai muito longe. Sua seleção espanhola é construída com base em jogadores que sabem dar antes de receber.

O estilo da Espanha sempre dependeu de jogadores que entendessem o futebol como jogo coletivo. O passe, a posse de bola e o posicionamento inteligente são qualidades técnicas, mas também sociais.

A seleção 'mais fácil de analisar', mas a 'mais difícil de ser vencida'

Todas as equipes que chegaram até aqui na Copa do Mundo têm um ponto em comum: uma ideia clara.

As seleções nacionais não contam com tempo suficiente para atingir a complexidade dos clubes. Por isso, a mensagem precisa ser simples e repetida.

É neste ponto que a Espanha detém a vantagem. Sua identidade futebolística se desenvolveu ao longo de décadas.

Jogadores e técnicos são selecionados por se enquadrarem nesta ideia, não o contrário. E eles conseguem fazer evoluir seu estilo porque as bases já estão formadas.

Alguns defendem que os espanhóis detêm uma certa vantagem sobre as seleções que tentam formar um "novo projeto", quando chega um técnico novo.

De la Fuente herdou esta identidade. Parafraseando Pep Guardiola, quando falava sobre o holandês Johan Cruyff (1947-2016), De la Fuente "não construiu a catedral, ele apenas a pinta de novo de vez em quando".

O técnico da Espanha acrescentou novas caraterísticas à sua equipe, como mais versatilidade, mais profundidade, maior conforto nas transições, mais imprevisibilidade no ataque e maior solidez.

Mas ainda é possível reconhecer a Espanha, que continua sendo "a seleção mais fácil de analisar", como me disse um membro da equipe portuguesa após sua derrota nas oitavas de final. Mas também é "a mais difícil de ser vencida".

De la Fuente conhece os jogadores porque trabalhou com eles na juventude por uma década.

Suas decisões como técnico refletem esta familiaridade. Sua equipe de apoio analisa logicamente os detalhes de cada partida e conclui quais ajustes precisam ser feitos.

Contra Cabo Verde, faltou requinte nos passes espanhóis. Contra a Arábia Saudita, a máquina voltou a funcionar com perfeição.

Contra o Uruguai, ele sabia que a Espanha historicamente perde quando é levada pela provocação e pelo caos. Por isso, ele insistiu na calma, disciplina e controle emocional.

O técnico da Espanha, Luis de la Fuente, com Lamine Yamal

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, A Espanha perdeu apenas três partidas com De la Fuente como técnico

De la Fuente reconhece que, anos atrás, ele teria reagido com mais emoção.

"A experiência me ensinou a enfrentar estas situações muitas vezes", ele conta.

"Passei por esses jogos, já os atravessei e, na maioria das vezes, perdi. Por quê? Porque não sabíamos jogar certos tipos de partidas."

"Por isso, quando alguém o irrita e afasta você do seu jogo, você se desconcentra, se sente paralisado, suspenso, a mudança prejudica seu ritmo."

Tudo isso ensinou a ele que a Espanha perde quando abandona sua identidade.

Suas entrevistas coletivas refletem os mesmos valores. Ele as prepara com a ajuda do diretor de futebol da federação, Aitor Karanka, da sua assessoria de imprensa e do psicólogo da Federação Espanhola, o ex-jogador Javier Lopez Vallejo. Mas ele improvisa quando é necessário.

De la Fuente fala do coração. Ele chama os jornalistas pelo nome porque aprendeu em casa que "o respeito começa reconhecendo a pessoa à sua frente".

Ele olha para as pessoas nos olhos e as trata como iguais. E insiste que não se trata de truques para lidar com a imprensa.

'Este é o momento de Lamine Yamal'

E sobre o prodígio Lamine Yamal? Seu rosto aparece em cada cartaz e seu talento despertou a imaginação do planeta.

Ser o técnico de Yamal é uma das tarefas mais delicadas de De la Fuente. Como ele faz?

"Bem, principalmente, ficando calmo e oferecendo confiança, pois sabemos de onde vem Lamine", explica ele. Yamal passou dois meses tratando de uma lesão, antes de voltar à seleção espanhola para a Copa.

"Ele ainda não está 100% em termos de condicionamento, mas sabemos que nossos planos foram traçados para esta fase."

"É aqui que queríamos vê-lo e ele quer ver a si próprio. E ele já está totalmente concentrado para fazer desta a sua Copa do Mundo", prossegue o treinador.

Mas De la Fuente sabe que o sucesso não se constrói em um único jogo. Ele vem pela maturidade.

É por isso que a partida contra Portugal, na visão de De la Fuente, foi a mais importante da carreira de Yamal. Não porque ele maravilhou o mundo com a bola, mas porque trabalhou incessantemente sem ela.

"Este é o seu momento", segundo o técnico. "Não o momento de marcar 10 gols, mas de ser decisivo nos jogos fundamentais."

"No meu entendimento deste esporte, o sucesso vem com uma boa equipe. Se você acrescentar alguns jogadores individuais incríveis, você quase atinge a perfeição, mas esta é a única forma de chegar a um objetivo."

Sua admiração por jogadores revela a mesma lógica, como Mikel Oyarzabal — na sua opinião, um dos cinco melhores centroavantes do mundo.

"Ele é um jogador que, em outras circunstâncias, seria reconhecido em todo o mundo como um atleta de ponta, o que é verdade, na minha opinião", destaca o técnico. "Ele, agora, está começando a ser reconhecido, o que já deveria ter acontecido há muito tempo."

Tudo o que se refere à vida de De la Fuente reflete sua consistência, incluindo seu treinamento diário para permanecer em forma.

"Sim, é um estilo de vida", ele conta. "O mais importante neste aspecto é a consistência. Sempre fui ensinado a ser disciplinado, consistente."

"Sou cansativo, meus amigos costumavam me dizer que sou cansativo. Quando me concentro em alguma coisa, sou daqueles que seguem sempre adiante."

E, no momento, ele só tem um objetivo na cabeça, que é vencer a Copa do Mundo.