Como De la Espriella construiu sua fortuna e os negócios questionáveis envolvendo o vencedor das eleições na Colômbia

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- Author, José Carlos Cueto
- Role, Correspondente da BBC News Mundo na Colômbia
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- Tempo de leitura: 7 min
Abelardo de la Espriella, que ganhou a eleição na Colômbia em apuração preliminar no domingo (21/06), admite ser um sibarita, pessoa que aprecia luxos e prazeres da vida em geral.
Um dândi com sotaque caribenho que gosta da boa gastronomia, passa temporadas em Florença e Miami, vende vinhos da Toscana e gravatas de seda italianas, usa relógios de luxo e dirige carros de potência extravagante.
"Eu o conheço e ele não vive de forma modesta; tem um padrão de vida que exige muitos recursos", descreve o jornalista Ángel Becassino, que investigou a biografia do presidente eleito da Colômbia — que aguarda a contagem oficial dos votos.
A fortuna de De la Espriella, um empresário conservador de linha dura alinhado à direita de Donald Trump, Nayib Bukele e Javier Milei nas Américas, foi um tema central de sua campanha.
Advogado, ele se apresenta como um empresário bem-sucedido que financiou sua campanha presidencial com seus lucros e empréstimos.
Foi com base nisso que defendeu sua condição de outsider, o que, segundo ele, lhe permitirá governar com independência em relação aos poderes tradicionais do país.
Mas sua fortuna também é alvo de questionamentos.
Críticos e adversários políticos debatem as ligações de De la Espriella com clientes associados ao paramilitarismo e a casos de corrupção.
Parlamentares democratas dos Estados Unidos e investigações de veículos como La Silla Vacía também levantam dúvidas sobre a transparência de suas atividades empresariais.
A origem de seu dinheiro está atraindo atenção depois de sua vitória no segundo turno contra Iván Cepeda, que buscava dar continuidade ao caminho progressista do atual presidente, Gustavo Petro.

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Um jovem de negócios
De la Espriella tem três nacionalidades: colombiana, americana e italiana.
Nasceu em Bogotá, mas foi criado em Montería, capital do departamento de Córdoba, na região caribenha da Colômbia.
"Ele vem de uma família de certo status, de classe média um pouco mais alta, de um ambiente com recursos e alguma propriedade rural", diz Becassino.
Desde pequeno, De la Espriella demonstrou aptidão para os negócios.
Ele alugava seu videogame para outras crianças e vendia mantimentos no bairro, contou.
Mais tarde, quando se mudou para Bogotá para estudar direito na Universidade Sergio Arboleda, ampliou seu mercado.
Gerardo Reyes, jornalista colombiano que também investigou parte da trajetória de De la Espriella, conta que "foi ali que ele fez negócios, vendendo roupas, uísque e esmeraldas nos Estados Unidos".
Aqueles foram os primeiros passos de uma carreira que levou à fundação de dezenas de empresas, entre elas um escritório de advocacia controverso, de grande visibilidade e prolífico, que impulsionou sua renda e sua marca pessoal.
Advogado de paramilitares
Após atuar como representante musical de cantores de música típica caribenha, como relata Becassino, De la Espriella encontrou sua galinha dos ovos de ouro no início dos anos 2000.
O governo de Álvaro Uribe Vélez estava concluindo o chamado Acordo de Santa Fe de Ralito, um processo de desmobilização e paz com as Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC).
As AUC foram um grupo paramilitar de extrema direita criado no fim dos anos 1990 para combater as guerrilhas de esquerda e proteger os interesses de empresários e proprietários rurais locais.
Um dos principais redutos do grupo foi o departamento de Córdoba.

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Às AUC são atribuídos crimes contra a humanidade, massacres e ligações com o narcotráfico.
De la Espriella "entra no universo paramilitar por meio de um antropólogo de Montería que ensinava geopolítica, boas maneiras e história a Carlos Castaño, líder das AUC", relata Reyes.
Ali ele encontrou o que muitos figurões do ramo consideram clientes ideais: pessoas com grande poder aquisitivo e necessidades urgentes. Nesse caso, eram indivíduos presos, acusados de crimes graves e dispostos a pagar o que fosse preciso para sair daquela situação.
"O próprio De la Espriella me descreveu essa condição como a ideal para um advogado. Foi assim que ele construiu sua fortuna", relata Becassino.
Fama, honorários elevados e acusações
Desde então, o empresário construiu um nome cada vez mais reconhecido, uma marca.
A seus serviços recorreram celebridades, empresários ricos, políticos do alto escalão, vítimas de violência de gênero e de desastres ambientais, além de pessoas envolvidas em escândalos de corrupção.
Um deles foi David Murcia Guzmán, fundador da empresa DMG, que sofreu intervenção do Estado em 2008 após um esquema de captação ilegal de recursos.
Em uma entrevista recente ao jornalista colombiano Daniel Coronell, Murcia Guzmán acusou o advogado de ter se apropriado indevidamente de 5 bilhões de pesos colombianos (US$ 1,4 milhão) e de lhe pedir outros 760 milhões de pesos (US$ 217 mil) para supostamente subornar congressistas.
De la Espriella processou Murcia Guzmán por injúria e calúnia. Murcia Guzmán cumpre atualmente uma pena de 30 anos de prisão.
Ele também foi representante de Álex Saab, empresário colombo-venezuelano apontado como suposto testa de ferro de Nicolás Maduro, de quem se desvinculou em 2019.
Saab foi extraditado da Venezuela para os Estados Unidos em maio para responder a acusações criminais.

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Becassino aponta que, pelos serviços desse tipo de clientes, De la Espriella teria cobrado honorários altíssimos, mas que o advogado também assumiu casos de grande repercussão que foram mais rentáveis para sua marca do que para seu próprio bolso.
"Cheguei a cobrar entre dois e três milhões de dólares, dependendo do caso", disse De la Espriella em uma entrevista publicada em seu site, De la Espriella Style.
Ele tem sido criticado por adversários políticos, meios de comunicação e analistas pela procedência de seus clientes e por sua relação com eles.
Sua equipe enquadra essa clientela dentro do exercício habitual da advocacia criminal e do direito a uma defesa legítima.
"Coleção de empresas"
Por meio da advocacia, Becassino conta que De la Espriella investiu e criou uma "coleção de empresas".
Uma delas é seu escritório, De la Espriella Lawyers, a joia da coroa que o próprio advogado aponta como seu negócio mais importante.
Ele também comercializa alimentos, bebidas e roupas por meio da De la Espriella Style.
Com a Dominio De la Espriella, produz e vende vinhos e runs.
O advogado ainda tem uma faceta musical. Em seu canal no YouTube, publicou vídeos reinterpretando clássicos como O Sole Mio, Volare e A Mi Manera.
Tudo faz parte dessa marca multifacetada, midiática, empreendedora e bem-sucedida com a qual se apresentou à Colômbia.
O veículo colombiano La Silla Vacía rastreou seu patrimônio empresarial.
Até dezembro de 2025, o veículo afirma ter encontrado 35 empresas "entre Colômbia, Panamá e Estados Unidos com as quais De la Espriella tem relação vigente ou muito recente".
Jineth Prieto, uma das jornalistas que assina a investigação, concorda que o escritório é a empresa mais rentável de De la Espriella e que ele possui muitos imóveis, mas afirma que outras empresas das quais ele se orgulha dão prejuízo, acumulam dívidas e colocam em dúvida a narrativa de sucesso do advogado.
Entre ativos e dívidas, Prieto e sua equipe estimaram o patrimônio de De la Espriella na Colômbia em cerca de 19 bilhões de pesos colombianos (US$ 5,43 milhões).

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"Esses são os números das empresas que encontramos. Pode ter mais. Com esse patrimônio, De la Espriella estaria entre os 1% mais ricos nos Estados Unidos, mas também não seria o candidato com mais dinheiro a disputar uma eleição na Colômbia", disse Prieto à BBC Mundo.
Rodolfo Hernández, o falecido adversário de Petro em 2022, que também se apresentava como outsider, declarou em 2022 um patrimônio equivalente a US$ 52 milhões, segundo Prieto.
A BBC Mundo não conseguiu verificar de forma independente as conclusões da La Silla Vacía, mas até o momento o presidente eleito na Colômbia não desmentiu as informações.
A La Silla Vacía enviou diversas perguntas a De la Espriella para solicitar sua versão diante das investigações, que concluíram que sua narrativa de sucesso não estava sustentada por demonstrações financeiras e que, além disso, "vários de seus sócios têm ou tiveram problemas com a justiça".
A campanha considerou as perguntas "capciosas e tendenciosas" e se recusou a respondê-las.
Na quarta-feira, 17 de junho, 11 congressistas democratas dos Estados Unidos enviaram uma carta pedindo ao Departamento de Estado, ao Departamento de Justiça e ao Departamento do Tesouro que investiguem a origem dos fundos dos investimentos de De la Espriella nos Estados Unidos.
Os congressistas também manifestaram sua preocupação com o apoio que o presidente Donald Trump deu à candidatura do presidente.
De la Espriella sempre afirmou que sua fortuna vem de seu trabalho duro.
"Não parei de produzir um único dia", disse em um vídeo publicado em seu canal no YouTube em 2024.



























